Por que Prince foi o popstar definitivo? Deixando de lado a persona extravagante, a iconografia chamativa e os shows eletrizantes, sua inquietação e senso lúdico geraram álbuns que são audições obrigatórias. Ele ampliou e subverteu o que vinha antes, tanto dele quanto de todo mundo. Os álbuns de Prince faziam suas faixas dialogarem entre si de um jeito que espelhava os próprios arranjos: padrões em mola, com uma leveza inesgotável. Um álbum deveria ser uma experiência dinâmica — e poucos demonstraram isso com o talento que Prince tinha.
Quase não há dinamismo nem brilho em Timeless, uma nova coletânea de sobras antigas que parece ter sido montada às pressas em uns 15 minutos. Ela é simplesmente chapada, como uma água com gás esquecida ao sol. Organizada em ordem cronológica, de uma demo de estúdio de 1977 a uma versão ao vivo de 2016 de um lado B querido, o conjunto nem chega a ganhar alguma coesão. Em vez de apresentar caminhos alternativos fascinantes e pistas do que poderia ter sido, Timeless nem sequer funciona bem como coleção de outtakes.
“Por que não?”
A pergunta circula durante a audição: por que essas músicas foram reunidas assim? O disco oferece poucas respostas convincentes. As melhores faixas aparecem como exceções: um par de rockzinhos descartáveis que se destacam pela energia crua — “The Guilty Ones”, de 2007, com uma guitarra rasgada maravilhosa; e a versão original, trêmula e new wave, de “Tick Tick Bang”, de 1981, que mais tarde entraria em Graffiti Bridge, de 1990, enfeitada com synths tortos e drum machine. Juntas, essas duas músicas soam como sementes de uma coletânea tematicamente coerente que alguém poderia ter feito com mais cuidado.
Mas mesmo essas faixas exigem concentração. Se você não se dedicar, a música basicamente evapora. A versão ao vivo em Oakland de “How Come U Don’t Call Me Anymore”, registrada na turnê final, parece jogada ali, mais como um extrato solto do que como uma escolha de montagem intencional; a faixa de abertura, “I Am You”, em grande parte do tempo faz o ouvinte desejar estar ouvindo “The Walk”, do The Time — uma música que realinha o groove daquela demo de 1977 com impulso e potência, transformando um calhambeque em carro de passeio.
Há também curiosidade histórica: é notável que o Prince-rapper-mal-ideado mantivesse determinada cadência ainda em 2003, ano em que gravou “Calabama”. Mas quando a gravação solta o verso
“NPG cutting up a rug”
qualquer fiapo de esperança sobre uma direção clara pode ser abandonado de vez. No fim, Timeless oferece pouquíssimas pistas sobre por que Prince foi o popstar definitivo; se alguém apresentasse esta coletânea como prova, dificilmente convenceria. O trabalho revela fragmentos interessantes para pesquisador ou fã curioso, mas falha em construir a sensação de descoberta e continuidade que um arquivo desse tipo poderia proporcionar.
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