No Palco Sunset, Péricles deixou samba e pagode de lado para revisitar soul e R&B de Marvin Gaye, Stevie Wonder e The Jackson 5. Em vez de reproduzir, imprimiu sua marca com voz grave e arranjos próprios.
Nesta segunda-feira (7), o Palco Sunset recebeu “Péricles Canta Motown”, um espetáculo em que o cantor deixou de lado temporariamente o repertório que o tornou referência no samba e no pagode para revisitar as canções que ajudaram a moldar sua formação musical. Entre soul, R&B e romantismo, clássicos associados a Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Jackson 5 e The Temptations ganharam a marca registral do cantor: voz grave, carisma e um afeto evidente pela materialização do som em palco.
Em vez de buscar reproduzir as gravações originais, Péricles propôs interpretações próprias. A banda e os backing vocals tiveram papel central nessa construção, dando corpo aos arranjos e permitindo que a voz do cantor transite com naturalidade pelo soul. No repertório, passaram músicas como “I Heard It Through the Grapevine”, “My Girl”, “I’ll Be There”, “Ain’t No Mountain High Enough” e “Cruisin'” — cada uma trazida para o universo do intérprete com um balanço que conversou tanto com a tradição da Motown quanto com a sensibilidade romântica que acompanha Péricles há décadas.
Antes de subir ao palco, em entrevista, Péricles explicou que a relação com a Motown faz parte de sua formação desde cedo e convive com outras referências fundamentais do samba brasileiro. Ao falar da responsabilidade de revisitar esse legado, o cantor resumiu em palavras o tamanho da influência que esses artistas tiveram em sua carreira.
“A minha responsabilidade é grande, porque a Motown me formou, né? O som da Motown me formou, assim como o som do Fundo de Quintal me ajudou a me formar. O som da Motown ajudou a me formar, a mim e a vários dos meus — o olhar de respeito pela música, o que fazer, o que não fazer, são grandes exemplos aí”
O lado romântico do show ganhou destaque especial em “Cruisin'”. Antes de começar a música, Péricles pediu a participação direta do público, orientando pares e transformando aquele momento em uma declaração coletiva de afeto.
“Uma declaração de amor agora, tá? Olhe para o seu amor e cante para ele. Se ele não estiver aqui, ligue para ele agora!”
O pedido surtiu efeito imediato: casais se abraçaram e diferentes demonstrações de carinho se espalharam pela plateia enquanto o cantor conduzia a canção. A emoção foi comentada nas redes por espectadores; uma publicação dizia: “Não sabia que precisava ver Pericles cantando Cruisin até vê-lo agora no Rock in Rio. Lindíssimo”.
“Quando era jovem, negro de periferia, vi esses exemplos e falei: ‘Bicho, isso é legal, esse caminho eu vou seguir; esse caminho eu não posso seguir'”
O figurino ajudou a compor a ambientação do tributo: Péricles surgiu de terno de risca de giz, óculos escuros e um manto estampado nas costas com rostos de referências da música negra norte-americana, reforçando a conexão estética com as grandes estrelas do soul das décadas de 1960 e 1970. Mais do que um passeio por canções consagradas, o espetáculo teve também uma dimensão simbólica: ao ocupar o palco e celebrar as referências que o formaram, Péricles colocou-se como parte de uma cadeia de referências musicais e sociais, com a possibilidade de inspirar novas gerações.
O resultado foi um show que conciliou respeito ao repertório original da Motown com a assinatura vocal e interpretativa do cantor, propondo um diálogo entre tradições distintas e provando que clássicos podem encontrar novas casas quando reinterpretados com cuidado e personalidade.
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