Substâncias alucinógenas como LSD, psilocibina, dimetiltriptamina (DMT) e MDMA voltaram ao centro da pesquisa científica e agora são estudadas ao lado de organoides cerebrais para desvendar mecanismos celulares ligados à saúde mental. O movimento marca um renascimento iniciado no fim dos anos 1990, após décadas de estagnação causada por restrições legais e estigma cultural.
Da exploração clínica ao banimento
Entre 1950 e 1965, mais de mil artigos investigaram aplicações terapêuticas dos psicodélicos, envolvendo cerca de 40 mil pacientes em Estados Unidos, Europa e Brasil. No país, USP e UFRJ realizaram testes com LSD e mescalina, descritos em publicações da época. Pesquisas de Humphry Osmond e Abram Hoffer apontaram benefícios no tratamento do alcoolismo, enquanto Sidney Cohen definiu parâmetros de segurança.
O avanço foi interrompido nos anos seguintes, quando as drogas passaram a ser proibidas em diversos territórios. O interesse ressurgiu no final dos anos 1990, sustentado por evidências de eficácia contra depressão resistente, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e dependência química, sobretudo em protocolos de psicoterapia assistida.
Limites dos modelos animais
Experimentos com roedores mostraram que psicodélicos aumentam a densidade de espinhas dendríticas e fortalecem conexões sinápticas. Porém, resultados promissores em animais nem sempre se repetem em humanos, devido a diferenças de arquitetura cerebral e metabolismo. Pressões éticas e novas legislações — como a lei sancionada no Brasil em julho de 2025 que proíbe testes cosméticos em animais — também impulsionam a busca por alternativas in vitro.
Organoides cerebrais ganham destaque
Células-tronco pluripotentes reprogramadas a partir de tecidos adultos permitem criar organoides, miniórgãos tridimensionais que reproduzem características do cérebro humano. Esses “avatares neurais” possibilitam:
- Observar, em tempo real, alterações de expressão gênica, densidade sináptica, metabolismo e atividade elétrica induzidas pelos psicodélicos;
- Testar diferentes doses e combinações de compostos;
- Analisar interações entre neurônios, astrócitos e, em modelos avançados, microglia, essenciais para a resposta imune e poda sináptica.
Revisão sistemática reúne evidências
Em artigo publicado na revista iScience, os pesquisadores Stevens Rehen (UFRJ) e José Alexandre Salerno (Unirio) revisaram mais de 180 estudos sobre o uso de células-tronco e organoides cerebrais na investigação de psicodélicos. O levantamento confirma que os modelos 3D são adequados para analisar plasticidade neural, processos inflamatórios e redes sinápticas modulados por essas substâncias.
Imagem: redir.folha.com.br
Próximos passos e desafios
A maturidade incompleta dos organoides ainda é obstáculo, mas cultivos prolongados e coquetéis de fatores químicos têm aprimorado a funcionalidade dessas redes neurais. Ferramentas de edição gênica como CRISPR, além de amostras de doadores clinicamente caracterizados, ajudam a reduzir variabilidade e a replicar fenótipos humanos com precisão.
Ao comparar a resposta de um paciente durante a terapia psicodélica com a reação de suas próprias células em laboratório, pesquisadores esperam identificar marcadores preditivos de eficácia e desenvolver formulações mais específicas e seguras.
Com a combinação de compostos que alteram a consciência e tecnologias de cultura celular, a neurociência avança rumo a tratamentos personalizados, capazes de atender a demandas urgentes em saúde mental.
Com informações de Folha de S.Paulo
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