São Paulo – A psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar e doutora em psicologia pela USP, afirma que o Estado brasileiro pratica “abandono de menor” ao responsabilizar exclusivamente pais e responsáveis pelos impactos das redes sociais na infância.
Em artigo, Iaconelli critica a lógica de um “Estado mínimo” que transfere às famílias o peso de proteger crianças, enquanto se exime de regular as big techs. Para ela, quando algo dá errado, o governo atribui a culpa à “negligência” familiar e ignora sua própria obrigação de garantir direitos básicos.
Exemplos de vulnerabilidade
A autora lembra casos de mães em situação extrema de pobreza que perdem o poder familiar porque seus filhos sofrem com fome e falta de moradia – problemas que, segundo ela, deveriam ser combatidos pelo poder público.
Outro destaque é o filme “A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert, em que a atriz Shirley Cruz interpreta uma catadora de recicláveis submetida a violência doméstica. Para Iaconelli, a produção retrata parte significativa da sociedade brasileira sem apelar ao melodrama.
Perigos dentro de casa
Se antes o temor era a exposição de crianças nas ruas, a psicanalista argumenta que hoje a maior ameaça está “no quarto delas”, diante da internet. Ela cita a série britânica “Adolescência”, que motivou escolas do Reino Unido a discutir consentimento em sala de aula.
Segundo Iaconelli, estudos neurocientíficos, psiquiátricos, psicológicos, endocrinológicos e pedagógicos já demonstram há mais de dez anos os efeitos nocivos das redes sobre desenvolvimento, corpo e sexualidade infantil. Mesmo assim, foi preciso que o influenciador Felca publicasse um vídeo para mobilizar opinião pública e Congresso, observa.
Imagem: redir.folha.com.br
Responsabilidade estatal
Iaconelli compara a omissão do governo à figura jurídica de “abandono de incapaz”, usada quando responsáveis deixam crianças à própria sorte. Ela argumenta que, ao “fingir não saber” da necessidade de regular as plataformas digitais, o poder público repete essa conduta.
A psicanalista admite que interesses políticos possam ter acelerado o debate, mas considera isso secundário: “Al Capone foi preso por evasão fiscal; sua retirada de circulação, por caminhos insuspeitos, trouxe ganhos à sociedade”, resume.
Para Iaconelli, a pressão por regulamentação das big techs é urgente, pois famílias não conseguem sozinhas combater o “modelo de negócio agressivo e inescrupuloso” das redes.
Com informações de Folha de S.Paulo
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