A chamada indústria do bem-estar, que engloba desde produtos de skincare até assinaturas de aplicativos de treino, representou aproximadamente 6% do PIB mundial em 2023, segundo o Global Wellness Institute. Embora o setor já movimente mais recursos do que a indústria farmacêutica (estimada em US$ 1,6 trilhão), especialistas alertam que preços altos de alimentos, roupas e equipamentos dificultam o acesso de parte da população à prática regular de atividade física.
Consumo guiado por tendências
Para a professora de Moda da ESPM, Juliana Lopes, tendências funcionam como sinalizadores de pertencimento. “Quando compro uma peça de determinada marca, mostro que estou conectado a um grupo”, afirma. Nos últimos anos, estilos como “tenniscore” e “balletcore” renovaram esse desejo, enquanto o uso de roupas de academia fora do treino — tendência presente desde a década de 1970 — voltou a ganhar força.
O economista e criador de conteúdo Presley Vasconcellos observa que o chamado “fitness core” é resultado direto de demandas criadas pela indústria. “O foco em autocuidado não é para todos. Pessoas com mais renda conseguem bancar alimentos orgânicos e aulas especializadas, enquanto quem tem menos recursos recorre a produtos ultraprocessados”, explica.
Alimentação saudável pesa no bolso
Levantamento mensal do Dieese mostra que a cesta básica em São Paulo custa R$ 865,90, mais da metade do salário mínimo nacional, de R$ 1.518. A despesa evidencia a distância entre o discurso de vida saudável e a realidade de grande parte dos brasileiros. Além disso, Presley ressalta que mulheres continuam dedicando tempo e dinheiro ao cuidado de terceiros, em detrimento de si mesmas.
Exercício ainda é privilégio
A professora de educação física e mestre em epidemiologia Vivian Hernandez Botelho lembra que a prática de exercícios de lazer no Brasil se concentra em homens, com maior escolaridade e residentes em áreas urbanas, conforme dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019. “A corrida de rua era vista como esporte democrático, pois bastava um par de tênis. Hoje, há propagandas de shorts, calçados e suplementos ‘ideais’, o que cria barreiras para iniciantes”, aponta.
Imagem: redir.folha.com.br
Moda e corpo “ideal”
Mesmo com avanços do movimento body positive na década de 2010, Juliana Lopes avalia que ainda existe uma “macrotendência” de corpos magros na moda. “Dependendo do conteúdo que se consome, pode parecer que só existe um tipo de corpo aceito”, observa. A pressão estética se soma à desigualdade de renda, dificultando a adesão a esportes e academias por quem não tem condições de manter o pacote completo de produtos, roupas e suplementação.
Enquanto o mercado do bem-estar segue em expansão global, especialistas concordam que a falta de informação acessível, os preços elevados e o marketing agressivo continuam limitando a prática de exercícios físicos no Brasil – sobretudo entre mulheres, pessoas com menor escolaridade e moradores de áreas menos favorecidas.
Com informações de Folha de S.Paulo
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