O psicoterapeuta norte-americano Clay Cockrell, que mantém uma clínica em Nova York (EUA) voltada ao atendimento de pessoas muito ricas, afirma que a convivência diária com clientes multimilionários o fez abandonar a ideia de ficar rico. “Percebi os perigos de ter tudo em excesso”, disse ele em entrevista à BBC News Brasil.
Cockrell descreve o que chama de “efeito tóxico da abundância”: a sensação constante de que a quantia disponível nunca é suficiente. Segundo o terapeuta, é comum o paciente acreditar que, ao atingir determinado patamar financeiro, se sentirá seguro — e logo estabelecer um novo alvo maior. “O dinheiro, por si só, não traz felicidade”, resume.
Propósito além do saldo bancário
Nas sessões, realizadas durante caminhadas no Central Park, Cockrell procura ajudar os clientes a encontrar objetivos que não se limitem a acumular capital. Entre as possibilidades exploradas estão filantropia, relacionamentos e novos projetos profissionais.
Problemas de relacionamento e isolamento
De acordo com o terapeuta, muitos super-ricos sofrem com falta de empatia, dificuldade para criar vínculos e desconfiança constante de quem se aproxima. O receio de serem procurados apenas por interesse financeiro leva a um círculo social restrito e a sentimentos de solidão.
Desafios dos herdeiros
Cockrell observa ainda que filhos de famílias abastadas podem enfrentar tédio precoce, busca por adrenalina em comportamentos de risco e pressão para superar os pais — especialmente quando seguem a mesma carreira. Em outros casos, a grande fortuna provoca falta de ambição, pois “tudo já está resolvido”.
Contraste com a maioria da população
Enquanto seus pacientes lidam com excesso de recursos, a escassez financeira continua sendo fonte de estresse para a maioria das pessoas. Levantamento da Associação Britânica de Psicoterapia indicou que 94% dos profissionais identificaram piora na saúde mental dos pacientes por causa do aumento do custo de vida.
Imagem: redir.folha.com.br
Fascínio e crítica aos super-ricos
O sucesso da série “Succession” (2018-2023), que Cockrell considera um retrato fiel do impacto da riqueza extrema, reflete o interesse público por bilionários — vistos ora como visionários, ora como beneficiários de um sistema injusto. Estudo da Oxfam aponta que o patrimônio dos cinco homens mais ricos do mundo dobrou desde 2020, enquanto a riqueza de cinco bilhões de pessoas diminuiu.
Consciente da visão ambivalente que a sociedade tem sobre grandes fortunas, Cockrell diz que muitos de seus clientes se sentem confusos entre admiração e crítica. Para ele, a principal lição que o convívio com os ultrarricos deixa é que bem-estar está mais ligado a vínculos pessoais e contribuição à comunidade do que a cifras.
Com informações de Folha de S.Paulo
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