Entre 10% e 40% da população mundial sofre com a sensibilidade ao ruído, condição caracterizada por irritação ou angústia diante de sons que passam despercebidos pela maioria. Estudos recentes mostram que o problema tem raízes biológicas e pode desencadear efeitos de curto e longo prazo no corpo e na mente.
Como o cérebro reage
Pesquisas conduzidas pelo neurocientista Daniel Shepherd, da Universidade de Tecnologia de Auckland (Nova Zelândia), revelam que, em pessoas sensíveis, o cérebro reage de forma intensa a qualquer tipo de som — ameaçador ou não. A equipe identificou menor capacidade de filtragem de ruídos no núcleo geniculado medial, estrutura que retransmite informações auditivas.
Estudo semelhante liderado pela neurocientista Elvira Brattico, da Universidade de Aarhus (Dinamarca), reforçou que essa falha de “peneira” neural explica a dificuldade em ignorar barulhos rotineiros.
Riscos para o bem-estar
A sensibilidade ao ruído pode elevar batimentos cardíacos, pressão arterial e prejudicar o sono. Uma pesquisa chinesa de 2021 acompanhou 500 adultos durante uma semana e concluiu que o som noturno não alterou a arquitetura do sono, mas quem era mais sensível relatou noites pouco reparadoras, mau humor e cansaço diurno.
Os impactos vão além do descanso. Em 2021, Shepherd e colegas analisaram 2.398 homens de Caerphilly, no País de Gales, expostos a diferentes níveis de ruído de trânsito; os mais sensíveis apresentaram maior propensão a ansiedade e depressão. Já um levantamento francês de 2023 com 1.244 adultos que vivem perto de aeroportos apontou que indivíduos fortemente incomodados pelo barulho dos aviões avaliavam sua saúde geral como pior.
Fatores genéticos e grupos de risco
Um estudo finlandês com gêmeos sugere herança genética para a condição. Pessoas com ansiedade, esquizofrenia, autismo ou que sofreram lesão cerebral traumática tendem a desenvolver maior reatividade sonora.
Diferença para outras condições sonoras
Segundo a médica Jennifer Brout, da Rede Internacional de Pesquisa sobre Misofonia (EUA), a sensibilidade ao ruído difere da misofonia (aversão a sons específicos, como mastigar) e da hiperacusia (dor ou desconforto causado por sons percebidos como mais altos que o normal).
Imagem: Internet
Caminhos de alívio
Ações urbanísticas — como as já aplicadas em cidades da Bélgica e da França, que incluem redução de velocidade, ciclovias, barreiras acústicas e zonas de silêncio — podem minimizar o problema. Enquanto avanços estruturais não chegam, quem sofre com a condição costuma recorrer a tampões de ouvido, fones com cancelamento de ruído e tratamento terapêutico.
Entre as abordagens clínicas estão medicamentos para ansiedade, terapia cognitivo-comportamental e, segundo Brattico, terapia musical com repertório suave (piano ou harpa) para criar associações positivas com o som. Arteterapia é indicada quando até a música se torna incômoda.
Embora a eliminação completa do barulho seja improvável, especialistas defendem que reconhecer a sensibilidade ao ruído como questão de saúde pública é passo essencial para reduzir o estresse e melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas.
Com informações de Folha de S.Paulo
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