São Paulo – Jogadores do Roblox, plataforma criada em 2006 e popular entre o público infanto-juvenil, vêm usando salas pouco moderadas para estimular crianças a realizar encenações de cunho sexual em troca de moedas e itens virtuais. Nas comunidades, os avatares envolvidos ganharam apelidos como “meninas do job” ou “primas do job”.
Como funciona a prática
Em jogos de interpretação dentro do Roblox, especialmente no popular Brookhaven, usuários criam personagens, definem profissões e constroem narrativas coletivas. Nessas salas, em vez de cumprir missões tradicionais, algumas crianças são orientadas a simular relações ou “trabalhos” semelhantes à prostituição para receber recompensas que facilitam a evolução no game.
Sinais de alerta nas redes sociais
Vídeos no TikTok reúnem alertas de pais e até relatos de jogadores sobre os “jobs”. A administradora Carolina Junqueira, 34, conta que se assustou ao ver o conteúdo e passou o material ao pai do filho, Rudá, de 7 anos. “Ele só cria ambientes, mas não usa o modo de conversa online”, disse.
Impacto no desenvolvimento infantil
Para Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, a exposição precoce pode provocar confusão sobre relações, repetição de falas erotizadas e comportamentos incompatíveis com a idade. A psicóloga Renata Yamasaki, especialista em neuropsicologia, acrescenta que estímulos repetidos moldam áreas cerebrais ligadas ao prazer e à memória, favorecendo erotização precoce e baixa autoestima. O psicólogo Rodrigo Nejm, do Instituto Alana, lembra que a familiaridade técnica das crianças com celulares não corresponde à maturidade emocional necessária para lidar com ambientes online.
Resposta da plataforma
Procurada, a Roblox Corporation afirmou que o material citado viola suas políticas e foi removido assim que identificado, sem revelar quantas contas ou quais conteúdos foram derrubados. A empresa declarou ter “profundo compromisso” com a segurança dos usuários e destacou que seus padrões proíbem conteúdo romântico ou sexual.
Falhas de segurança já apontadas
Em 2024, relatório da Hindenburg Research listou salas com temáticas abusivas acessíveis a menores, além de perfis ofensivos, indicando que interesses comerciais estariam se sobrepondo à proteção infantil.
Imagem: redir.folha.com.br
O que diz a legislação brasileira
A Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Marco Civil da Internet determinam proteção integral aos menores, inclusive no ambiente digital. Segundo a criminalista Maria Araújo, trocas virtuais com conotação sexual — como os “jobs” — podem configurar crimes:
- Art. 218 do Código Penal – corrupção de menores;
- Art. 241-C do ECA – simulação de participação de criança em ato sexual por meio de representações visuais;
- Arts. 241-A e 241-D do ECA – divulgação de conteúdo sexual envolvendo menores e aliciamento on-line.
Denúncias podem ser registradas em delegacias físicas ou eletrônicas, pelo Ministério Público, Disque Denúncia (181) e Web Denúncia em São Paulo. Prints e vídeos devem ser preservados nos dispositivos originais para investigação, mas o armazenamento de material sexual envolvendo menores é crime se não houver intuito de repassar às autoridades.
Recomendações de especialistas
Especialistas sugerem supervisão constante dos responsáveis, uso de controles parentais e diálogo frequente sobre os riscos de interações on-line. A orientação vale também para outros títulos com lógica de rede social, como Minecraft, Free Fire e Fortnite.
Com informações de Folha de S.Paulo
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