Dois episódios recentes reacenderam o debate sobre o possível elo entre esteroides anabolizantes e comportamento agressivo. O ex-atleta Eduardo Pereira Cabral, em uma crise de ciúmes, teria desferido 61 socos no rosto da namorada. Já o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior foi detido em flagrante numa academia após matar a tiros um gari durante uma discussão de trânsito. Ambos exibem físico extremamente musculoso, levantando a suspeita de uso de hormônios e colocando a testosterona no centro da discussão.
Testosterona dentro e fora dos níveis normais
Em diversas espécies, machos tendem a ser mais agressivos que fêmeas, e a castração — que reduz a testosterona — costuma atenuar essa diferença. O hormônio age em áreas cerebrais ligadas a emoções e controle da agressividade, como a amígdala e o córtex orbitofrontal. No entanto, pesquisas indicam que, dentro da faixa fisiológica, não há associação direta entre testosterona e violência em humanos.
Quando administrada em doses muito acima do normal, a testosterona pode alterar conexões entre a amígdala e o córtex frontal, diminuindo o controle sobre impulsos agressivos. Nessas condições, aumenta a percepção de ameaça, reduz a empatia e favorece tomadas de risco, segundo estudos citados por especialistas.
Padrões de agressão ligados aos anabolizantes
A literatura científica descreve três perfis de violência associados ao abuso de esteroides:
- “Roid rage”: explosões desproporcionais a estímulos mínimos;
- “Terminator”: agressão planejada e calculada;
- “Sturmschnapps”: uso pontual do hormônio minutos antes de um crime para elevar agressividade e autoconfiança.
Usuários envolvidos em crimes costumam manifestar sensação de invencibilidade, obsessão por injustiças percebidas e pouca consciência do próprio comportamento.
Fatores sociais e histórico pessoal pesam mais
Embora estatísticas apontem maior risco de condenações criminais entre quem faz uso de anabolizantes, outras variáveis — como consumo de drogas recreativas e traços antissociais pré-existentes — complicam a relação de causa e efeito. Evidências sugerem que os hormônios potencializam tendências já presentes, especialmente em disputas por status social, tese conhecida como “hipótese do desafio”.
Imagem: redir.folha.com.br
Experimentos que simulam negociações econômicas mostram até aumento de generosidade após administração de testosterona, dependendo do contexto. O neurobiólogo Robert Sapolsky avalia que a sociedade premia comportamentos violentos com status, contribuindo para o problema.
Limites da biologia nos tribunais
Nos Estados Unidos, a chamada defesa de “roid rage” já foi usada para tentar reduzir penas por crimes violentos. Pesquisas em primatas apontam que a testosterona intensifica a agressão, mas de forma seletiva: indivíduos de hierarquia média tornam-se mais violentos com membros de posição inferior, evitando conflito com o macho alfa. Entre humanos, a dinâmica de direcionar violência a alvos “seguros” também se repete, como sugerem os casos que motivaram o debate.
Em síntese, o uso de anabolizantes não transforma necessariamente uma pessoa pacífica em agressora, mas pode amplificar comportamentos previamente presentes, sobretudo em ambientes que valorizam a força como símbolo de poder.
Com informações de Folha de S.Paulo
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