Uma revisão de estudos clínicos conduzida por pesquisadores da Suécia e da Dinamarca sugere que o aparente benefício antidepressivo da psilocibina pode ser inflado pelo chamado efeito nocebo – quando a expectativa negativa do paciente reduz ou até reverte a melhora dos sintomas.
O trabalho, publicado no JAMA Network Open, analisou 17 ensaios randomizados e controlados por placebo, totalizando 4.960 voluntários. Desses, 373 participaram de testes com psilocibina, substância presente em cogumelos alucinógenos; 4.014 utilizaram antidepressivos tradicionais da classe ISRS, como o escitalopram; e o restante recebeu escetamina, princípio ativo do spray nasal Spravato.
O que a meta-análise encontrou
• Nos estudos com psilocibina, a diferença de resposta entre o grupo tratado e o grupo placebo foi maior do que a observada nos testes com escetamina ou ISRS.
• Essa distância, porém, aumentou principalmente porque o grupo placebo da psilocibina mostrou menor melhora clínica – 23 pontos percentuais abaixo do observado nos controles com escetamina e 14 pontos abaixo dos controles com ISRS.
Efeito nocebo em ação
Segundo os autores Fredrik Hieronymus, Evana López, Helena Sjögren e Johan Lundberg, a intensa experiência subjetiva provocada pela psilocibina faz com que os participantes percebam rapidamente se receberam a substância ativa ou não. Ao identificar que tomaram um placebo, muitos se sentem frustrados, o que pode diminuir – ou mesmo anular – a recuperação espontânea normalmente vista em ensaios clínicos, caracterizando o efeito nocebo.
Limitações apontadas
Os próprios autores reconhecem dois pontos que ainda precisam ser esclarecidos:
Imagem: redir.folha.com.br
1. Apenas 373 pacientes compuseram o conjunto de dados sobre psilocibina, contra mais de 4 mil nos estudos com ISRS. Resultados futuros, com amostras maiores, poderão confirmar ou refutar as diferenças observadas.
2. A análise questiona a magnitude do benefício específico da psilocibina frente ao placebo, mas não descarta que os participantes que efetivamente receberam o psicodélico tenham apresentado melhora rápida – característica promissora sobretudo para casos resistentes a tratamentos convencionais.
Com os resultados, os autores recomendam cautela antes de atribuir à psilocibina um efeito antidepressivo superior, destacando a importância de protocolos que minimizem a quebra do duplo-cego nos próximos ensaios clínicos.
Com informações de Folha de S.Paulo
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