Idosos que adotam computadores, smartphones e internet no cotidiano apresentam menor chance de déficit cognitivo e demência, segundo análise que reuniu 57 estudos com mais de 411 mil participantes acima de 50 anos (idade média de 69).
O trabalho, assinado pelo neurocientista cognitivo Michael Scullin, da Universidade Baylor, e pelo neuropsicólogo Jared Benge, da Universidade do Texas em Austin, foi publicado na revista Nature Human Behavior. Em quase 90% das pesquisas avaliadas, o contato frequente com recursos digitais mostrou efeito protetor para o cérebro.
Primeira geração digital chega à velhice
A geração que passou a lidar com dispositivos eletrônicos na meia-idade agora alcança faixas etárias em que o declínio cognitivo costuma surgir. Ainda assim, os dados indicam que o aprendizado constante exigido pela tecnologia pode funcionar como exercício mental.
“Esses aparelhos trazem desafios complexos. Superar a frustração de atualizações e novos sistemas traz estímulo semelhante ao observado em atividades cognitivamente benéficas”, explicou Scullin.
Especialistas destacam resultado “provocador”
Para o psiquiatra Murali Doraiswamy, diretor do Programa de Distúrbios Neurocognitivos da Universidade Duke, a conclusão “inverte a narrativa de que a tecnologia é sempre prejudicial”. O psicólogo Walter Boot, da Weill Cornell Medicine, avaliou os achados como “plausíveis”, pois consideram o uso real de tecnologia por longos períodos, não apenas programas de treinamento cerebral de curta duração.
Exemplo prático
A norte-americana Wanda Woods, 67, ilustra essa tendência. Após décadas trabalhando com computadores, ela hoje leciona em um centro da Senior Planet, em Denver, projeto apoiado pela AARP que ensina habilidades digitais a pessoas mais velhas. Woods afirma que continuar conectada “a mantém por dentro de tudo”.
Imagem: redir.folha.com.br
Benefícios e limites
Além do estímulo intelectual, a tecnologia amplia conexões sociais, outro fator reconhecido por retardar a perda de memória. Aplicativos de lembrete, compras e banco também ajudam na rotina prática.
Os autores, contudo, alertam que os resultados não provam causa e efeito: pessoas com melhor cognição podem aderir mais facilmente às novidades digitais, e renda mais alta — necessária para adquirir equipamentos — pode influenciar os dados.
Fraudes on-line e desinformação seguem como riscos, e especialistas lembram que telas não substituem atividades físicas ou alimentação equilibrada, bases para a saúde cerebral.
Com informações de Folha de S.Paulo
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