Referência do hip hop, Froid marcou época com discos conceituais e debates sobre identidade. Após desgaste da rotina, reencontrou o prazer de fazer música e apresentou um projeto que revisita suas raízes.
Froid construiu uma trajetória que ajudou a transformar o hip hop brasileiro. Fundou o Um Barril de Rap, lançou discos conceituais que marcaram época — Teoria da Água, O Pior Disco do Ano e O Queridinho de Deus —, ganhou prêmios, virou referência em debates sobre arte, política e identidade negra e sempre foi citado entre os nomes mais influentes do gênero. Aos 12 anos de carreira, ele tinha tudo o que um artista poderia desejar.
Em determinado momento, porém, a música deixou de ser apenas paixão e passou a ser um trabalho com as rotinas e concessões que isso traz. De uns anos para cá, os projetos nasceram de um lugar diferente: muitos produtores, negociações artísticas frequentes e tentativas de alcançar públicos variados. Funcionava em números e oportunidades, mas algo em Froid não parecia encaixar.
Nos primeiros trabalhos estava clara a marca dele — aquele som misterioso e denso que ele mesmo chamou de “magia obscura”. Em entrevista, o rapper mineiro explicou como isso acontecera:
“Eu percebi que eu cheguei num som, num tipo de som que é muito meu e ele é um som misterioso. A música que me fez virar, se você perceber que é pseudo social, que é uma música política e tudo mais, ela é um som misterioso”.
Com o aumento das colaborações em estúdio, a magia foi cedendo espaço. O próprio artista descreveu o processo:
“Não sei quando me afastei dela, mas sinto que foi no momento em que tive que trabalhar com um monte de produtores, porque aí o cara no estúdio dizia assim: ‘Pô, vamos fazer uma parada mais para cima’. E isso é uma característica de um produtor X, Y, e não minha”.
Foi preciso um reencontro consigo mesmo para nomear o que estava acontecendo. Quando a ficha caiu, tudo mudou: a percepção de que vida e trabalho estavam conectados virou motor de transformação. Segundo ele, a mudança passou por uma nova relação com rotina e hábitos:
“Quando você começa a amar o trabalho, você começa a amar a sua vida”.
“Você tem que acordar cinco horas da manhã para fazer uma coisa que você não gosta e aí você não faz”, explica. “E quando você é um artista e percebe que tá tudo interligado, então, tipo, se eu acordar cinco horas da manhã para correr, eu vou ter a melhor ideia para minha música”.
Com essa nova mentalidade, Froid ajustou rotina, sono, treinos e estudos. Ele retomou o estudo de teclado, produção e até investiu em busca de samples: “Cheguei até a comprar 200 vinis pra procurar samples”, contou. Era um amor reencontrado pela música — e desse amor nasceu Humor Negro, seu novo álbum.
O processo de criação começou com uma direção curiosa: a intenção inicial era fazer música de praia e experimentar timbres caribenhos. Mas, no meio do caminho, vieram reflexões mais profundas sobre emoções e representatividade. Sobre esse ponto, ele disse:
“A primeira intenção era fazer música de praia”.
“Depois, no meio dessa história toda, eu cheguei a uma concepção muito maluca, que era que ninguém se importava com as emoções de um certo grupo de pessoas”.
Froid aprofundou a ideia de como a sociedade olha para homens negros bem-sucedidos e para suas emoções, e percebeu ter caído na expectativa externa de que deveria estar sempre feliz depois de certas conquistas:
“Eu cheguei na minha concepção de que as pessoas não se importam com o sentimento dos negros, no Brasil principalmente. Quando ele chega num status social, uma credibilidade financeira, o cara te olha e fala assim: ‘Mano, tá triste?’. Como você vai ficar triste, olha tudo que cê tem”.
“Eu caí na pegadinha das pessoas de dizer que agora eu tinha que ficar feliz porque eu tinha conquistado uma coisa”.
Decidiu então abandonar o projeto “de praia”:
“Cara, eu também não vou ficar fazendo música na praia não, porque na verdade eu tô é puto. Eu tô é triste. Ninguém tá terça-feira na praia não, meu brother”.
Ao retomar a soberania sobre as batidas, a tal magia obscura voltou naturalmente. Sobre isso, ele afirmou:
“Essa estética eu não preciso forçar, porque é uma estética que eu criei. Então, ela é minha”.
Nesse processo de retomada criativa, Froid produziu oito das 11 faixas do disco — o maior volume de produção própria da carreira — e quis uma obra sem necessidade de discutir artisticamente com terceiros:
“Eu queria fazer uma obra que fosse só com meu gosto. Que eu não tivesse que discutir artisticamente com ninguém. Queria fazer uma obra que fosse minha”.
“Esse álbum tá mais transparente, mano. Tipo, não é como se eu tivesse fingindo: ‘Ah, tá tudo dando certo’”.
A sonoridade de Humor Negro mistura boombap, passagens acústicas, dancehall e afrobeats, mas mantém coesão por vir de um mesmo lugar de criação. Ele resumiu essa mistura afirmando como trouxe referências negras latino-caribenhas e guitarras para dialogar com boombap, rap, afrobeat e dancehall:
“O humor negro latino caribenho é essa festividade ali que tem no afrobeat… eu trouxe muita coisa caribenha em cima dessas guitarras. Tipo o boombap, o rap, o afrobeat, o dancehall que é da Jamaica, são todas músicas negras que eu tenho referência”.
De todas as faixas, “Endrick” foi citada como a que abriu um portal emocional no álbum. Sobre essa música, ele disse:
“Quando eu escrevi, eu estava indignado com algumas coisas que eu considerava que eu tinha que ter ganhado. Tipo jogar no Real Madrid, ser titular do Real Madrid. ‘Endrick’ foi a música que abriu o portal para mim, botei para fora minha frustração. Tirei a min
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