Médicos e cientistas seguem divididos sobre o papel do sol para a saúde humana. Enquanto autoridades reforçam o alerta contra o câncer de pele, pesquisas recentes apontam efeitos que vão além da produção de vitamina D, sugerindo um possível impacto positivo sobre doenças autoimunes, cardiovasculares e até na regulação do relógio biológico.
Da “era da vitamina D” ao questionamento atual
A hipótese de que a vitamina D seria o elo entre sol e prevenção de doenças ganhou força em 1980, quando os epidemiologistas Frank e Cedric Garland, da Universidade Johns Hopkins (EUA), relacionaram maior incidência de câncer colorretal a regiões com menos luz solar. O conceito impulsionou a popularização dos suplementos, mas ensaios clínicos posteriores não confirmaram efeitos significativos sobre câncer, diabetes ou doenças cardiovasculares.
Em países com menor irradiação, como o Reino Unido, estudos registraram o ressurgimento do raquitismo entre crianças de pele mais escura, principalmente nos meses em que os raios UVB não alcançam o solo (novembro a março).
Estudos observacionais sugerem efeito protetor
Análises populacionais têm indicado que, apesar do aumento de melanomas, indivíduos expostos à luz solar diária podem viver mais. Pesquisa com militares da Marinha dos Estados Unidos apontou mortalidade por câncer de pele três vezes menor do que o esperado e 44% menos óbitos por outras neoplasias. Na Suécia, acompanhamento de mulheres por 20 anos mostrou que quem evitava o sol tinha o dobro de mortalidade geral e 130% mais risco de morte por doenças cardiovasculares.
Esclerose múltipla e a latitude
A esclerose múltipla apresenta forte correlação com a distância da Linha do Equador. Na Austrália, a taxa sobe de 12 para 76 casos por 100 mil habitantes do norte ao sul do país. Crianças que passam mais de uma hora ao ar livre diariamente chegam a ter risco cinco vezes menor de desenvolver a doença do que aquelas que ficam menos de 30 minutos.
Em um ensaio preliminar na Austrália, 30% dos pacientes em estágio inicial tratados com fototerapia UV não evoluíram para a forma completa da enfermidade, contra 0% no grupo de controle.
Nascimento da fotoimunologia
Pesquisadores investigam como a radiação UV pode modular o sistema imunológico. Reações na pele geram substâncias como endorfinas, serotonina, óxido nítrico e lumisterol. Um estudo de 2023 identificou lipídios que instruem células T a evitar proliferação excessiva — mecanismo típico de doenças autoimunes.
Imagem: Internet
Ritmos circadianos e luz natural
Além da radiação direta, a simples exposição à claridade externa, sobretudo pela manhã, ajuda a sincronizar ritmos circadianos, influenciando hormônios, humor e metabolismo.
Moderação continua essencial
Especialistas recomendam evitar queimaduras, permanecer fora do sol entre 11h e 15h no verão e usar protetor solar com FPS 15 ou superior. A fototerapia, embora promissora, ainda não substitui completamente o espectro solar natural, mas surge como alternativa para quem convive com doenças autoimunes.
A discussão avança, mas o consenso atual indica que a chave está no equilíbrio entre aproveitar benefícios potenciais e prevenir danos já comprovados.
Com informações de Folha de S.Paulo
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