Pessoas que afirmam recordar experiências de vidas passadas apresentam taxas mais elevadas de ansiedade, depressão e outros sintomas de sofrimento psíquico do que a média da população brasileira. A conclusão faz parte de uma pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que ouviu 402 voluntários em todo o país.
O trabalho, publicado no The International Journal for the Psychology of Religion, integra a tese de doutorado da pesquisadora Sandra Maciel de Carvalho e foi conduzido pelo Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), ligado à Faculdade de Medicina da UFJF.
Principais números do estudo
• 46% dos participantes apresentaram sintomas compatíveis com transtornos mentais comuns, como ansiedade e depressão. A média nacional, segundo o Observatório de Saúde Pública, é de 27% para ansiedade e 13% para depressão.
• 25% relataram sinais de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), enquanto em capitais com alta violência, como o Rio de Janeiro, a prevalência estimada é de 3,5%.
• 70% disseram ter desenvolvido fobias inexplicáveis ainda na infância.
Quem são os entrevistados
O grupo era formado majoritariamente por mulheres (79%), pessoas com ensino superior (68%) e adeptos do espiritismo (54,5%). A maioria (82%) declarou que as memórias surgiram de forma espontânea, em média aos 19,9 anos, sem uso de técnicas de regressão ou hipnose.
Relatos marcados por traumas
Entre os depoimentos recolhidos está o da urbanista Camila Ledesma, 40, que nunca fumou, mas, em momentos de estresse, leva os dedos à boca como se segurasse um cigarro. Ela afirma lembrar de uma vida como enfermeira durante uma guerra, cuidando de soldados sob bombardeio.
Outros participantes contaram episódios envolvendo traições, assassinatos, suicídios e acidentes. Uma mulher, por exemplo, dizia entrar em pânico sempre que ouvia um avião — medo que associou a uma suposta encarnação anterior.
Explicações em aberto
De acordo com Carvalho, o objetivo não foi comprovar a existência de reencarnação, mas avaliar o impacto das lembranças na saúde mental. O psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, orientador da tese, pondera que múltiplos fatores podem estar em jogo, desde mecanismos de defesa psicológica até experiências espirituais genuínas.
Imagem: redir.folha.com.br
O estudo também apontou que níveis mais altos de religiosidade e espiritualidade parecem atuar como fator de proteção, reduzindo parte do sofrimento associado às recordações.
Memória é construção, lembra especialista
A psiquiatra Tânia Alves Ferraz, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, ressalta que lembranças são continuamente reconstruídas e podem misturar fatos reais com impressões externas, como filmes ou relatos de terceiros. Segundo ela, o aspecto mais relevante da pesquisa mineira é mensurar o impacto emocional desses conteúdos, independentemente de sua veracidade.
Os autores reforçam que novos estudos são necessários para compreender as origens dessas memórias e elaborar estratégias de cuidado para quem sofre com elas.
Com informações de Folha de S.Paulo
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