Peças que chegam a custar milhares de reais nas vitrines brasileiras e estrangeiras têm origem em um dos maiores peixes de água doce do mundo, o pirarucu. Embora a cadeia seja apresentada como exemplo de manejo sustentável, lideranças ribeirinhas e especialistas afirmam que o maior valor agregado do couro fica longe de quem vive da pesca no interior do Amazonas.
Da contagem nos lagos às passarelas
O pirarucu já foi considerado ameaçado de extinção e teve a pesca suspensa nos anos 1990. Hoje, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autoriza a captura de até 30 % dos exemplares adultos, após contagem feita pelas próprias comunidades. Os pescadores também vigiam os lagos para evitar invasões.
Apesar do esforço, o vice-presidente da Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), Pedro Canízio, diz que a remuneração continua baixa. “O quilo do pirarucu inteiro é vendido aqui a, no máximo, R$ 11. Já vi bolsa feito com a pele ser vendida por valor que um manejador não tem condições de pagar”, relata.
Mercado concentrado
Estudo da Operação Amazônia Nativa (Opan) apurou que, em 2018, 95 % das peles passaram pelas mãos de apenas sete frigoríficos. No exterior, dados da plataforma Panjiva indicam que 70 % do valor exportado de pirarucu e derivados em 2024 e 2025 saiu da brasileira Nova Kaeru, que já respondia por 68 % das vendas externas entre 2011 e 2018.
O diretor comercial da empresa na Amazônia, José Leal Marques, afirma que o preço pago pela pele é “elevado para os padrões do setor” e diz investir em qualificação local. Segundo ele, o couro de luxo representa apenas 5 % da demanda; a maior parte segue para fábricas de botas country nos Estados Unidos.
Grifes apostam na narrativa sustentável
Pioneira no Brasil, a Osklen divulga que o material contribui para a economia circular e gera renda às populações ribeirinhas. Já a norte-americana Piper & Skye se apresenta como união entre luxo e sustentabilidade. Ambas reconhecem “desafios” na cadeia e defendem a necessidade de ações coletivas para maior transparência.
Dificuldades para agregar valor na origem
Transformar a pele em couro exige processos como lavagem, retirada das escamas, tingimento e secagem. Por falta de estrutura, comunidades quase não participam dessa etapa. A Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), que representa 800 famílias, criou a marca Gosto da Amazônia para vender a carne e sonha replicar o modelo para o couro, mas esbarra no custo de instalação de curtumes.
“Se a atividade não remunerar de forma justa, os manejadores podem migrar para práticas mais danosas ao meio ambiente”, alerta Ana Alice de Britto, da Asproc.
Imagem: g1.globo.com
Contrabando e fiscalização insuficiente
Além da distribuição desigual de renda, a pesca ilegal continua preocupando. Levantamento do Ibama aponta 1,1 mil multas ligadas ao pirarucu desde 2000, 70 % delas no Amazonas. O chefe do Núcleo de Fiscalização da Atividade Pesqueira, Igor de Brito, reconhece falta de pessoal: “Gostaríamos de fazer operações semanais, mas não damos conta”.
Sem rastreamento completo, o controle se perde após o peixe ser fracionado em carne, língua ou couro. “Com tanto peixe ilegal capturado, alguém está recebendo e processando”, observa a consultora Fernanda Alvarenga.
O que dizem as empresas
Em nota, a Nova Kaeru afirma não definir valores de peixe ou pele, negociados localmente, e reforça que paga acima do mercado. A empresa também destaca custos de logística, insumos importados e trabalho artesanal. Já a Osklen e o Instituto-E defendem políticas públicas para levar tecnologia de beneficiamento às comunidades. A Piper & Skye garante monitorar fornecedores e manter “os mais altos padrões de ética”.
No meio do caminho entre a sustentabilidade alardeada pelas grifes e o cotidiano dos ribeirinhos, o couro do gigante amazônico segue valendo ouro, mas pouco brilha na beira dos lagos.
Com informações de g1
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