Nos primórdios da década de 1970, o Kiss era visto como uma banda de nicho, com uma imagem agressiva e um som cru que atraía principalmente um público masculino. O produtor Bob Ezrin, que já havia colaborado com artistas icônicos como Lou Reed e Alice Cooper, descreve essa fase da banda como dominada por “moleques espinhentos de 15 anos”. Essa aura puramente machista, segundo Ezrin, afastava as mulheres dos shows, resultando em plateias compostas quase que exclusivamente por homens.
Em entrevistas para a CBS e o podcast Rockounters, Ezrin relembrou como a banda precisava de uma mudança para expandir seu público. O divisor de águas foi a balada “Beth”, uma canção originalmente composta para Becky, esposa do baterista Peter Criss. A música foi escrita com a colaboração de um antigo amigo de Criss, Stan Penridge, e do próprio Ezrin.
Ao ouvir a demo de “Beth”, Ezrin viu um potencial que Gene Simmons e Paul Stanley não perceberam. Para ele, o Kiss precisava mostrar uma “vulnerabilidade humana” para conquistar novos ouvintes. Usando uma analogia cinematográfica, Ezrin explicou que, até aquele momento, a banda se comportava como o personagem “mau e desagradável” de Lee Marvin no filme O Selvagem (1953). O objetivo era transformá-los em figuras mais acessíveis, como o personagem de Marlon Brando, que, apesar de sua casca grossa, possuía uma sensibilidade que poderia atrair o coração das mulheres.
“Você precisa deixar as garotas da América sentirem que talvez elas possam te ajudar”, brincou o produtor.
A inclusão de “Beth” no álbum Destroyer, lançado em 1976, não foi um caminho tranquilo. Simmons e Stanley resistiram à ideia, acreditando que uma balada ao piano, acompanhada por uma orquestra, não representava a verdadeira identidade do Kiss. O empresário Bill Aucoin também tinha suas reservas, talvez por questões pessoais relacionadas ao nome de sua ex-mulher, Beth.
Surpreendentemente, a música foi lançada como o lado B do single “Detroit Rock City”. Contudo, as rádios começaram a ignorar o lado A explosivo e optaram por tocar repetidamente a melodia suave de “Beth”. O resultado foi um sucesso estrondoso: a canção alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 100, tornando-se o single de maior sucesso da banda nos Estados Unidos.
A estratégia de Ezrin se mostrou acertada. Ao apresentar um lado mais “doce e ferido”, o Kiss quebrou barreiras e finalmente conseguiu abrir as portas para um público mais diversificado, incluindo as mulheres que, antes, se sentiam excluídas. Essa mudança não só transformou a banda, mas também impactou a cena do rock na época.

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