A jornalista e escritora Jéssica Moreira, coautora do blog Morte Sem Tabu, publicou um artigo em que questiona o uso de metáforas como “virou estrelinha” para falar sobre morte com crianças e recorda lembranças da chamada “rua da morte”, na periferia de São Paulo.
Por que importa
Segundo Jéssica, tratar o tema de forma direta ajuda crianças a entender que o falecimento é um processo natural e irreversível. A autora defende que fantasias podem confundir e dificultar o luto.
Contexto
Em conversa diária pelo WhatsApp com as colegas de blog Camila Appel e Cynthia Araújo, o trio costuma debater maneiras de abordar o fim da vida. O tema voltou à tona após a novela Dona de Mim, da TV Globo, exibir a morte do personagem Abel (Tony Ramos). Na trama, a filha do protagonista recusa a ideia de que o pai “virou uma estrela” e diz que ele se tornou um tubarão, exemplo que, para Jéssica, mostra a necessidade de explicações mais concretas.
Lembranças de infância
A colunista conta que cresceu em Perus, zona norte da capital paulista, onde o tio era sepultador no Cemitério Dom Bosco. Velórios em casas de vizinhos eram comuns, e visitas ao cemitério faziam parte da rotina familiar. O único funeral que evitou foi o do avô, conhecido por praticar benzimentos.
Nas primeiras segundas-feiras de cada mês, o pai acendia velas “às almas” no cemitério, enquanto caminhavam entre as lápides. Foi assim que Jéssica descobriu que sua avó morreu em 6 de junho, exatamente 11 anos antes do seu nascimento.
A “rua da morte”
A autora relata que, em Perus, existe uma via sem nome oficialmente associado onde, quando criança, viu dois corpos cobertos por lençóis brancos. À esquerda há um matagal; à direita, hoje, um conjunto habitacional. O local, apelidado de “rua da morte”, ainda causa desconforto sempre que aplicativos de transporte sugerem o trajeto, diz ela.
Números da violência
O Atlas da Violência 2025, com base em dados de 2023, registrou 45,7 mil homicídios no Brasil, dos quais 47,8% tiveram como vítimas jovens. Pelo menos 21,8 mil pessoas entre 15 e 29 anos foram mortas, média de 60 assassinatos por dia. O risco de um brasileiro negro ser vítima de homicídio é 2,7 vezes maior do que para não negros.
Imagem: redir.folha.com.br
Ecos na periferia
Produzido em 2021, um podcast do coletivo Nós, mulheres da periferia em parceria com o Instituto Vladimir Herzog ouviu moradores que também citavam ruas associadas a execuções durante a Ditadura Civil-Militar. Nos últimos dias, rappers entrevistados em diferentes programas relataram experiências semelhantes em seus bairros.
Morro do Urubu
Amiga da autora, a comunicadora Regiany Silva lembrou o “Morro do Urubu”, no bairro Tiradentes, extremo leste de São Paulo. O nome não é literário, explica Jéssica: deriva da quantidade de assassinatos registrados no local.
Impacto e ressignificação
Para a colunista, a morte aparece de forma tão constante nas periferias que muitos evitam discuti-la. Ela afirma tentar escolher caminhos diferentes para não passar pela “rua da morte” e reflete sobre quantas crianças precisam alterar rotas diárias para se manter vivas. “Sobreviver”, lembra, envolve mais do que comida no prato: significa criar outras trajetórias, “cheias de artes”, que ajudem a ressignificar esses lugares.
Com informações de Folha de S.Paulo
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