A popularização da microdosagem de cogumelos, prática que consiste em ingerir quantidades muito pequenas de fungos psicoativos para supostos ganhos de humor e produtividade, coincidiu com um aumento expressivo de intoxicações em todo os Estados Unidos. Centros de controle de venenos vêm registrando quadros de náuseas, vômitos, convulsões e problemas cardiovasculares ligados a chocolates, gomas e outros comestíveis vendidos sem receita.
Mercado cresce, rótulos falham
Com a descriminalização da psilocibina em alguns estados e a maior tolerância social aos psicodélicos, fabricantes passaram a ofertar produtos que alegam benefícios cognitivos. Para escapar de restrições federais, várias marcas substituíram os clássicos cogumelos Psilocybe por outras espécies, como juba-de-leão, reishi e, sobretudo, o gênero Amanita – famoso pelo chapéu vermelho com pintas brancas e pelo potencial tóxico.
Ao contrário da psilocibina, os compostos ativos do Amanita (muscarina, muscimol e ácido ibotênico) podem provocar efeitos adversos mais severos. Mesmo assim, aparecem em gomas e chocolates rotulados como “nootrópicos”, muitas vezes sem informação clara sobre dosagem ou espécies utilizadas.
Casos emblemáticos
No estado da Virgínia, cinco pessoas foram hospitalizadas após ingerir gomas de marcas distintas que citavam muscarina na embalagem. Testes de laboratório detectaram não só psilocibina, mas também cafeína, efedrina e mitraginina (alcaloide do kratom) – nenhum deles mencionado nos rótulos.
Em 2023, uma investigação envolvendo 34 estados rastreou mais de 180 intoxicações a produtos da marca Diamond Shruumz. O surto levou a um recall nacional em 2024, obrigando lojas a retirar os itens das prateleiras. No fim do mesmo ano, a Food and Drug Administration (FDA) alertou que cogumelos Amanita “não são reconhecidos como seguros” (padrão GRAS) e classificou-os como aditivos alimentares não aprovados. Apesar do aviso, os produtos continuam circulando.
Números em ascensão
Em 2016, mais de 6,4 mil intoxicações por cogumelos foram reportadas nos EUA, apenas 45 relacionadas a Amanita. O cenário mudou após a descriminalização parcial: chamadas por sintomas graves aumentaram, especialmente em consumidores de comestíveis de microdosagem.
Imagem: redir.folha.com.br
Falta de fiscalização e risco de identificação
A identificação correta de espécies é difícil mesmo para coletores experientes; cogumelos visualmente parecidos podem ter composições químicas opostas. Suplementos alimentares, por sua vez, não exigem verificação independente das matérias-primas nem detalhamento de todos os ingredientes, deixando o consumidor sem garantias sobre o que, de fato, está ingerindo.
Especialistas alertam que, enquanto a rotulagem permanecer deficiente e a fiscalização limitada, novos surtos de envenenamento tendem a ocorrer à medida que o mercado de microdosagem continua a se expandir.
Com informações de Folha de S.Paulo
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