Especialistas que investigam a relação entre dispositivos eletrônicos e qualidade do sono revelam que a luz azul emitida por smartphones, TVs e tablets pode não ser a principal responsável pelas noites em claro. Pesquisas recentes sugerem que fatores como duração de uso, distância do aparelho, intensidade do brilho e até a atividade realizada na tela interferem na produção de melatonina – hormônio que induz o sono – de formas distintas.
Estudos laboratoriais apontam resultados variados
A professora Lauren E. Hartstein, da Universidade do Arizona, afirma que muitos trabalhos sobre luz azul foram conduzidos em ambientes altamente controlados e com amostras pequenas, o que limita a aplicação dos achados ao cotidiano.
Levantamentos coordenados pela cientista Mariana Figueiro, da Escola de Medicina Icahn no Mount Sinai (Nova York), indicam que:
- Usar um iPad no brilho máximo por duas horas provocou leve redução de melatonina; uma hora não alterou o hormônio (estudo de 2013).
- Assistir TV a 2,7 metros de distância não impactou os níveis de melatonina (2014).
- Quanto maior o brilho do tablet, maior a supressão hormonal (2018).
Outro trabalho, publicado em 2019, expôs 55 adultos a vários tipos de luz à noite e mostrou grande variação individual: o participante menos sensível precisou de 40 vezes mais luminosidade para apresentar a mesma queda de melatonina que o mais sensível.
Exposição ao sol e sensibilidade individual contam
Pesquisas sugerem que quem recebe luz solar intensa durante o dia fica menos suscetível à queda noturna de melatonina causada por telas. Além disso, sensibilidade à luz varia de pessoa para pessoa, tornando difícil prever um efeito único.
Evidências ainda inconclusivas
Uma revisão de 2022 que avaliou duas dezenas de estudos com jovens adultos encontrou resultados conflitantes: alguns mostram ligação entre luz azul e sono ruim; outros, não. Em 2024, a National Sleep Foundation concluiu que faltam provas de que a exposição a telas antes de dormir prejudique o descanso.
Tipo de atividade digital faz diferença
Segundo o psiquiatra Daniel Buysse, da Universidade de Pittsburgh, atividades interativas – como videogames, redes sociais, compras on-line e apostas – ativam o sistema de recompensa cerebral e tendem a prolongar o estado de alerta. A psicóloga Hartstein reforça que esses estímulos mantêm a mente engajada mesmo após desligar o aparelho.
Imagem: redir.folha.com.br
Um estudo divulgado em 2024 com cerca de 500 adolescentes de 15 anos mostrou que quem jogava, enviava mensagens ou conversava no celular antes de dormir adormecia mais tarde e dormia menos. Já assistir filmes ou séries não alterou o tempo de sono, embora o conteúdo não tenha sido especificado.
Conteúdo familiar pode ajudar a relaxar
Para pessoas que travam uma batalha contra pensamentos negativos na hora de dormir, revisitar programas ou livros já conhecidos pode ser útil. O psicólogo Aric Prather, da Universidade da Califórnia em São Francisco, relata que alguns pacientes recorrem a comédias leves para “desligar” a mente antes de pegar no sono.
Especialistas recomendam evitar o consumo de mídia na cama, a fim de manter a associação do ambiente apenas com dormir. Mesmo assim, quem adormece com facilidade e se sente descansado no dia seguinte não precisa, necessariamente, mudar seus hábitos, diz Hartstein.
Com informações de Folha de S.Paulo
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