Promessas de recuperação rápida após treinos, perda de gordura acelerada e ganho de massa muscular com poucas aplicações têm atraído cada vez mais homens entre 40 e 60 anos para o uso de peptídeos injetáveis. Esses compostos, vendidos em sites, redes sociais e clínicas de bem-estar, são apresentados como “biohacks” capazes de frear o envelhecimento, mas a maioria não possui aprovação para uso humano nem passou por testes clínicos robustos.
Na medicina, peptídeos não são novidade: a insulina foi isolada em 1921 e comercializada em 1923. Hoje, mais de cem fármacos baseados nessas cadeias de aminoácidos estão liberados, caso da semaglutida — conhecida pelos nomes comerciais Ozempic e Wegovy. O cenário muda, porém, quando se fala nos produtos que circulam em academias e fóruns de fisiculturismo: substâncias experimentais que mostraram resultados apenas em estudos com animais.
Principais compostos em circulação
BPC-157 – Encontrado inicialmente no suco gástrico humano, ganhou fama por acelerar a cicatrização de tendões, dentes e órgãos digestivos em roedores. Pesquisadores ainda desconhecem o mecanismo exato, mas apontam estímulo à formação de vasos sanguíneos e migração celular para áreas lesionadas.
TB500 – Versão sintética da timosina beta-4, proteína natural relacionada à regeneração tecidual e redução de inflamações. Em conjunto com o BPC-157, forma o chamado “Wolverine stack”, alusão ao herói da Marvel conhecido por se recuperar rapidamente de ferimentos.
IGF-1 LR3 – Derivado modificado do fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1). Em animais, aumentou a massa muscular em até 2,5 vezes, mas nunca foi estudado em voluntários humanos.
Evidências científicas limitadas
Estudos em humanos são escassos e pouco rigorosos. Um trabalho relatou alívio de dor no joelho em mais de 90% dos participantes após injeções de BPC-157, porém não houve grupo de controle e foram identificadas falhas metodológicas.
Imagem: redir.folha.com.br
Perigos associados
- Agentes químicos usados na síntese podem causar reações alérgicas graves, incluindo anafilaxia.
- Uso prolongado de substâncias para desempenho já foi ligado a insuficiência cardíaca súbita em fisiculturistas jovens.
- Complicações no local da aplicação incluem síndrome do compartimento, necrose de pele e necessidade de cirurgia.
- Relatos de contaminações resultaram em casos de HIV, hepatites B e C e infecções oculares.
- Alguns peptídeos interferem em vias biológicas relacionadas a insulina e VEGF, esta última ativa em cerca de metade dos tumores humanos, levantando preocupação sobre possível estímulo a processos cancerígenos.
Devido aos riscos e à falta de aprovação regulatória, a Agência Mundial Antidoping (WADA) proíbe o uso dessas substâncias em competições esportivas.
Uso crescente nas academias
Pesquisa de 2014 indicava que 8,2% dos frequentadores de academias utilizavam drogas para aprimorar desempenho. Revisão publicada em 2024 sugere que a proporção pode ter subido para 29%. Mesmo assim, apenas 38% dos usuários reconhecem os perigos envolvidos.
Enquanto não houver ensaios clínicos capazes de comprovar eficácia e segurança, especialistas alertam que quem recorre a esses peptídeos se coloca como voluntário em um experimento sem controle — e com consequências ainda desconhecidas.
Com informações de Folha de S.Paulo
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