Um artigo assinado por Pietro Benedito e Emilia Sanabria, publicado em julho na revista Science, Technology and Human Values, reacendeu o debate sobre o lugar do Brasil no chamado “renascimento psicodélico”. Sob o título “Nação Psicodélica? (Des)provincializando o Renascimento Psicodélico do Brasil”, o texto examina como o país, mesmo distante dos centros de pesquisa do Norte Global, consolidou posição de destaque nos estudos clínicos com substâncias psicodélicas.
Produção científica em números
Levantamento bibliométrico conduzido em 2021 por Aviad Hadar e colaboradores mostrou que o Brasil soma 34 artigos entre os mais citados do mundo sobre psicodélicos. O resultado coloca o país atrás de Estados Unidos (102 trabalhos), Reino Unido (78), Suíça (70) e Espanha (42), mas à frente de Alemanha (26) e Holanda (6).
Outro dado reforça o papel brasileiro: ao ponderar o impacto das cem publicações mais relevantes pelo tempo desde o lançamento, o estudo de Hadar identificou em quinto lugar um ensaio clínico duplo-cego com ayahuasca contra depressão, divulgado em 2019 pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Conduzida pelo Instituto do Cérebro sob liderança de Fernanda Palhano-Fontes, Nicole Galvão-Coelho e Dráulio de Araújo, a pesquisa acumulava 84 citações na época (42 por ano) e, seis anos depois, já soma 544 referências — média de quase 91 citações anuais.
Fatores que impulsionam a pesquisa
Benedito e Sanabria apontam diferentes motivos para esse desempenho, entre eles:
- legalização do uso religioso da ayahuasca, chá amazônico que contém dimetiltriptamina (DMT);
- sistema público de financiamento universitário robusto;
- tradição em saúde coletiva, medicina social, reforma psiquiátrica e políticas de redução de danos.
Pesquisadores como Luís Fernando Tófoli, Marcelo Falchi e Bruno Gomes, entre outros, circulam nesses campos e, em alguns casos, também são ou foram integrantes de religiões ayahuasqueiras — proximidade incomum para cientistas de países do Norte Global.
Desafio de aproximar ciência e saberes originários
Apesar da relação estreita com grupos religiosos urbanos como Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal, a conexão entre a academia e os povos indígenas, responsáveis por práticas ancestrais com a ayahuasca e a jurema-preta, ainda é incipiente. Essa lacuna tornou-se visível em eventos recentes cobrados pela Folha, como a 5ª Conferência Indígena da Ayahuasca, realizada de 25 a 30 de janeiro de 2025 na Aldeia Sagrada Yawanawa (Terra Indígena Rio Gregório, Tarauacá-AC), e o 1º Seminário de Medicinas Ancestrais: Jurema, em Pernambuco.
Imagem: redir.folha.com.br
As discussões reforçaram o apelo pela “descolonização” da pesquisa e pela hashtag #PsicodélicosNoSUS, que defende acesso seguro e justo a terapias psicodélicas no sistema público. Para autores e participantes dos encontros, a continuidade do protagonismo brasileiro dependerá da construção de um pacto que envolva povos ayahuasqueiros e juremeiros, universidades, grupos neo-xamânicos, profissionais de saúde mental e o movimento psicodélico leigo.
Sem esse entendimento, alertam especialistas, o país corre o risco de ver esfriar uma trajetória que hoje o coloca entre os principais polos globais de investigação sobre substâncias como a DMT.
Com informações de Folha de S.Paulo
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