O álbum de 1991 transformou um trio de Seattle em fenômeno global e redesenhou o rock do fim do século. Suas faixas viraram hinos, referência para novos músicos e marco cultural.
Nevermind (1991) marcou uma virada na história do rock: o Nirvana, que até então era um nome alternativo com alcance limitado a bolsões “cool” dos Estados Unidos, transformou-se em fenômeno global que alterou profundamente o cenário musical. O impacto do trio — Kurt Cobain (voz e guitarra), Krist Novoselic (baixo) e Dave Grohl (bateria) — foi tal que faixas do disco se tornaram exercício básico em aulas de guitarra e referências obrigatórias para quem descobria o rock naquele fim de século.
A trajetória que levou ao álbum começou já em 1990, quando a banda vivia um momento de definição. O grupo vinha ampliando as turnês pelos Estados Unidos e pela Europa, enquanto a sua então gravadora, a Sub Pop Records, enfrentava dificuldades financeiras. O selo independente havia sido essencial para dar visibilidade à cena de Seattle, mas a prática de tirar tiragens limitadas transformou lançamentos em itens colecionáveis e criou tensão entre artistas e a necessidade prática de pagar contas.
Antes de Nevermind, o Nirvana havia lançado Bleach (1989), um disco que circulou no underground com sonoridade próxima ao punk e ao metal, além de covers e a canção mais pop “About a Girl”. Jason Everman aparecia na capa de Bleach apesar de não ter participado das gravações. Para o segundo álbum, a banda decidiu trabalhar com o produtor Butch Vig, em sessões iniciais realizadas em Wisconsin, que renderam cinco faixas que seriam incluídas em Nevermind, entre elas “Polly”, “In Bloom” e “Lithium”. Durante esse processo, Chad Channing foi substituído por Dave Grohl na bateria, consolidando a formação mais conhecida do grupo.
Bootlegs das gravações começaram a circular pela indústria e atraíram o interesse de grandes gravadoras. Em 30 de abril de 1991 a banda assinou contrato com a Geffen Records, um passo que abriu novas possibilidades para a produção e a distribuição do trabalho. As sessões oficiais de gravação com Butch Vig começaram em maio, em Los Angeles, e o repertório vinha sendo refinado — incluindo uma canção que estreou ao vivo poucos dias antes: “Smells Like Teen Spirit”.
“Eu estava tentando criar a música pop definitiva. Eu basicamente estava tentando copiar o Pixies. Tenho que admitir. Quando ouvi o Pixies pela primeira vez, me conectei tanto com aquela banda que eu deveria ter feito parte dela. Usamos o senso deles de dinâmica, sendo suaves e quietos e depois altos e pesados. […] ‘Teen Spirit’ tinha um riff tão clichê. Quando criei a parte da guitarra, Krist olhou para mim e disse: ‘Isso é tão ridículo’.” — Kurt Cobain
Após as gravações, a mixagem passou por polimentos: a banda e o produtor não ficaram satisfeitos com as primeiras versões, e Andy Wallace foi chamado para mixar o disco. Wallace, conhecido por trabalhos em álbuns pesados, entregou uma mixagem mais enxuta e polida, que ampliou a potência sonora do disco.
No plano artístico, Nevermind comprovou uma qualidade rara em composição, melodia e produção. “Smells Like Teen Spirit” condensou imagens de juventude alienada em versos de forte catarse; “Lithium” explorou solidão e saúde mental com refrães eufóricos; “In Bloom” zombou da legião de fãs incapazes de compreender as letras; e “Come As You Are” mostrou a habilidade pop do grupo ao transformar um riff que lembrava a canção “Eighties”, da banda Killing Joke, em algo mais lento e sinistro. Fora dos singles, faixas mais contidas como “Polly” e “Something in the Way” tiraram o ouvinte do conforto ao abordar temas pesados com arranjos minimalistas — “Polly” refere-se a um caso de sequestro, estupro e tortura ocorrido contra uma menina de 14 anos em Tacoma, Washington, em 1987, narrado do ponto de vista do agressor, o que intensificou a inquietação causada pela canção.
O sucesso de Nevermind ultrapassou os círculos alternativos e mudou a maneira como o rock era percebido e ensinado, ao mesmo tempo em que gerou frustração em Kurt Cobain, que chegou a declarar ódio pela dimensão do impacto do álbum. Independentemente das contradições pessoais do vocalista, o disco permaneceu como um divisor de águas cultural e musical que redefiniu um gênero.




