No Rock in Rio 2026, o pagodeiro transformou repertório da gravadora americana em tributo afinado e natural. A extensão vocal e o fraseado soul encaixaram-se ao timbre que o consagrou.
Colocar o pagodeiro Péricles diante de um repertório inteiramente ligado à gravadora americana Motown poderia soar como um desvio. No entanto, a apresentação que ocorreu na segunda-feira, 7, durante o Rock in Rio 2026 provou o contrário: a extensão vocal e o fraseado típicos da soul music dialogaram com o timbre e o jeito de cantar que consagraram o artista ao longo de décadas.
Nos meses anteriores ao festival, Péricles explicara por que escolheu esse caminho: tratou a Motown como uma referência transformadora para a música negra e afirmou que sua própria forma de cantar traz elementos daquela escola. Em cena, isso se traduziu tanto em escolhas de repertório quanto em arranjos pensados para valorizar a voz e a dinâmica da banda.
“Chamou a Motown de ‘revolução’”
O sucesso da noite não foi responsabilidade apenas do vocalista. A banda, com mais de dez integrantes — incluindo quatro vozes de apoio (três mulheres e um homem), metais, baixo, bateria e percussão — construiu uma base sólida para que cada canção respire. O setlist foi montado com critério, privilegiando hits e mantendo um fluxo dinâmico: sem momentos morosos, sem deixar que as faixas mais lentas arrastassem o espetáculo.
A principal incerteza era exatamente como Péricles se sairia diante de repertório tão distinto do pagode romântico que o consagrou. A resposta veio na interpretação: o cantor demonstrou conhecimento profundo das obras que escolheu, respeitou as versões originais quando possível e fez adaptações coerentes quando o ajuste de tonalidade ou timbre foi necessário — como em “I’ll Be There”, do Jackson 5.
Vocalmente, houve destaques claros: a delicadeza em “My Girl” (The Temptations), a exploração controlada dos graves em “I Heard It Through The Grapevine” (na versão associada a Michael McDonald) e até a inesperada energia de “Super Freak” (Rick James), muitas vezes não lembrada como parte do catálogo Motown por ter saído pela subsidiária Gordy. A inclusão de “End of the Road” (Boyz II Men) trouxe um recorte pós-1980 que ampliou o diálogo entre gerações dentro do show.
“a maior banda de R&B”
No encerramento, a sensação foi a de um cantor reencontrando raízes e confirmando afinidades estilísticas. A proposta soou natural e consistente, abrindo espaço para imaginar que um projeto maior — quem sabe uma turnê inteira dedicada à Motown — faria sentido tanto artisticamente quanto para o público que acompanhou a apresentação no festival.
Setlist
- 1. Ain’t no Mountain High Enough (Marvin Gaye e Tammi Terrell)
- 2. I Want You Back (The Jackson 5)
- 3. How Sweet It Is (To Be Loved By You) (Marvin Gaye)
- 4. My Girl (The Temptations)
- 5. Cruisin’ (Smokey Robinson)
- 6. I Heard It Through The Grapevine (Michael McDonald)
- 7. I’ll Be There (Jackson 5)
- 8. End of the Road (Boyz II Men)
- 9. Let’s Get It On (Marvin Gaye)
- 10. For Once In My Life (Stevie Wonder)
- 11. Super Freak (Rick James)
- 12. Signed, Sealed, Delivered (I’m Yours) (Stevie Wonder)
- 13. All Night Long (Lionel Richie)
- 14. ABC (The Jackson 5)
- 15. Superstitious (Stevie Wonder)
Em suma, a apresentação foi um encontro bem-sucedido entre universos musicais: Péricles trouxe sua identidade ao material sem diluir a essência das canções e teve ao seu lado uma banda que soube acompanhar com precisão. O resultado foi um tributo caprichado, coerente e com momentos de verdadeira comunhão entre intérprete, repertório e público.
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