O baterista recorda sessões intensas e som cru, distante do pop que o grupo costumava tocar. Ele descreve o clima tenso e improvisos que transformaram a faixa em marco do Álbum Branco.
Ringo Starr foi lembrado como a bateria que sustentou os Beatles durante oito anos e depois manteve uma carreira solo sólida com mais de 20 álbuns de estúdio. Entre os muitos momentos da trajetória da banda, uma faixa se destacou por intensidade e clima de estúdio que fugia ao padrão melódico pelo qual os Beatles eram mais conhecidos: “Helter Skelter”.
Lançada em 1968 no álbum autointitulado The Beatles (o famoso Álbum Branco), “Helter Skelter” mostrou um lado mais sombrio e distorcido do quarteto. Para os padrões da época, a canção era muito mais pesada do que o que tocava nas rádios e passou a ser citada como uma das faixas que ajudaram a definir bases do heavy rock e do que viria a ser chamado de heavy metal.
“‘Helter Skelter’ foi uma faixa que gravamos em total loucura e histeria no estúdio”, disse Ringo Starr.
Na versão final lançada, o registro contou com Paul McCartney nos vocais, Ringo Starr na bateria, John Lennon no baixo e até participação de Mal Evans no trompete. A gravação não foi um processo calmo: McCartney contou que a ideia nasceu, em parte, como resposta a um comentário de Pete Townshend, do The Who, sobre gravar algo mais barulhento e visceral.
“Eu estava na Escócia e li na Melody Maker que Pete Townshend tinha dito: ‘Acabamos de fazer o disco de rock ‘n’ roll mais obsceno, barulhento e ridículo que você já ouviu.’ Eu nunca descobri qual era a música que o The Who tinha feito, mas aquilo me motivou; só de ouvi-lo falar sobre isso. Então eu disse aos caras: ‘Acho que deveríamos fazer uma música assim; algo realmente selvagem.'” — Paul McCartney
McCartney descreveu a sessão de gravação como caótica do início ao fim. Em determinado momento, George Harrison teria ateado fogo em um cinzeiro e corrido pelo estúdio com ele acima da cabeça. A intensidade das repetições e a busca por um som cada vez mais alto deixaram marcas físicas e sonoras no processo.
“Dá para ouvir as vozes falhando, e tocamos a música tantas vezes e por tanto tempo que, no final, dá para ouvir o Ringo dizendo: ‘Estou com bolhas nos dedos'”, comentou McCartney. “A gente só queria aumentar o volume: ‘Não dá para fazer a bateria soar mais alta?’ Era só isso que eu queria fazer: gravar um disco de rock ‘n’ roll bem alto e visceral com os Beatles. E acho que ficou muito bom.”
Décadas depois da gravação original, o repertório de “Helter Skelter” continuou a marcar encontros entre os músicos. Em dezembro de 2024, Paul McCartney convidou Ringo Starr para dividir a faixa durante um show na O2 Arena, em Londres, quase 60 anos após a sessão que gerou a versão do Álbum Branco. Em 2026, os dois músicos também se reuniram na canção “Home to Us”, presente no álbum The Boys of Dungeon Lane, de McCartney.
O relato sobre “Helter Skelter” reforça como, mesmo em meio a experimentos e improvisos, os Beatles conseguiram transformar tensão e ruído em momentos musicais que ultrapassaram a época e seguem repercutindo na história do rock.



