Vítimas usam redes sociais para denunciar abusos dentro de igrejas
Duas mulheres que afirmam ter sofrido violência sexual por homens em cargos de liderança religiosa relataram seus casos no Instagram e denunciaram o silêncio e a reprovação que sofreram nas comunidades a que pertenciam. Os relatos de Ane Almeida e Stephanie Lourenço ganharam atenção depois de repercussão de um trecho do sermão da pastora Helena Raquel, da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), no 41º Congresso dos Gideões, no Rio de Janeiro.
No evento, Helena falou sobre a proteção a homens abusadores dentro de instituições religiosas e disse, em trecho bastante compartilhado: “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você”. Em entrevista, a pastora afirmou que o silêncio frequentemente decorre da tentativa de preservar a própria comunidade: “As pessoas se sentem na obrigação de proteger a comunidade e, por isso, não falam. Quando, na verdade, a comunidade não pode ser acusada pelo erro de uma pessoa”. Ela também afirmou que enfrentar publicamente esses casos demonstra responsabilidade coletiva e que “há vida após a denúncia”.
Ane Almeida tinha 16 anos quando, segundo seu relato, foi estuprada pelo pastor da igreja que frequentava no litoral do Paraná. Ela procurou na família do líder acolhimento diante de problemas em casa, mas, segundo ela, sua vulnerabilidade foi explorada. Ane conta que o pastor combinou um passeio que se revelou uma ocasião de violência. Demorou cerca de quatro meses para que ela compreendesse o que havia ocorrido. Ao procurar a esposa do pastor, relata que teve sua versão contestada e foi apontada pela comunidade como amante, o que a levou a se afastar.
Após os episódios, o pastor, segundo Ane, passou a declarar-se apaixonado por ela como forma de mantê-la em silêncio e criar oportunidades para ficarem sozinhos. Hoje, aos 42 anos, Ane trabalha como psicóloga. Ela diz que o que mais a afetou foi a rejeição por parte da igreja e a priorização da “restauração do pastor”. Mudou-se de cidade e, ao tentar reconstruir sua fé em outra comunidade, relata que novamente sofreu assédio por parte de um novo pastor. Para lidar com o trauma, escreveu o livro Além da face do abismo e passou a falar publicamente sobre a experiência.
Stephanie Lourenço relata ter sido vítima de pedofilia desde os 8 anos, por um homem ligado à igreja frequentada por sua família em Taboão da Serra (SP). Segundo ela, os atos libidinosos ocorriam às vezes disfarçados de brincadeiras, outras vezes enquanto dormia. Em episódios descritos, o agressor se masturbou na presença dela e chegou a se despir, pedindo que a criança tocasse seu órgão genital.
Somente ao perceber que o irmão caçula também estava sendo alvo do mesmo homem ela contou o abuso aos pais. Por medo de represálias e descrença, não tornou o caso público na igreja. Stephanie questiona a ausência de medidas de prevenção e proteção nas instituições religiosas, especialmente considerando que, segundo dados do Censo Demográfico 2022, as mulheres são maioria entre os frequentadores. Ela afirma que vozes como a da pastora Helena são necessárias para interromper ciclos de proteção a agressores dentro das comunidades.
Os relatos de Ane e Stephanie ilustram, segundo as próprias mulheres e a pastora entrevistada, como a combinação entre autoridade religiosa, silêncio institucional e estigma contra quem denuncia contribui para a perpetuação de abusos.
Com informações de Revistamarieclaire.globo
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