Embora a presença feminina no trabalho formal tenha crescido desde a sanção da Lei da Igualdade Salarial em 2023, indicadores oficiais e pesquisas mostram que diferenças persistentes em remuneração, distribuição do cuidado e acesso a cargos de comando mantêm as mulheres em situação de desvantagem no mercado de trabalho em 2026.
Participação e renda
O 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios do Governo Federal registra um aumento de 11% na participação das mulheres no emprego formal desde a entrada em vigor da lei. Mesmo assim, a pesquisa evidencia que, em empresas privadas de médio e grande porte, a remuneração feminina é, em média, 21,3% inferior à masculina — alta de três pontos percentuais em relação à primeira edição do relatório, de 2024.
O recorte por raça mostra crescimento no acesso a vínculos formais para mulheres não brancas (alta de 29%), mas também aponta que elas permanecem com os menores rendimentos. O salário médio desse grupo caiu de R$ 3.040,89 em 2024 para R$ 3.026,66 neste ano, enquanto mulheres brancas registraram um aumento médio de 1,14% no rendimento mensal.
Responsabilidade financeira e empreendedorismo
Mais da metade dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres, segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas com dados do IBGE. Nesse cenário, o empreendedorismo tem sido uma saída frente ao subemprego e à baixa remuneração: pesquisa do Instituto Consulado da Mulher com a ENGIE Brasil e apoio do Instituto Be.Labs revelou que 71% das nanoempreendedoras são negras, 75% passaram a empreender por falta de alternativa no mercado e 80% têm rendimento mensal de até R$ 3.000.
Estudos citados no levantamento também mostram que, mesmo com pior acesso a crédito e renda menor, mulheres quitam dívidas com mais frequência — um estudo da fintech Neon indica que elas pagam 11,6% mais dívidas que homens. O custo médio de despesas básicas no país está estimado em cerca de R$ 3.520, o que, segundo especialistas ouvidos, dificulta a construção de patrimônio feminino sem mudanças na redistribuição do cuidado e no acesso ao crédito.
Trabalho doméstico, saúde e políticas
Dados da Pnad Contínua do IBGE evidenciam que mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos, contra 8,8 horas dos homens. Pesquisas realizadas pela Sempreviva Organização Feminista (SOF) com a Gênero e Número e apoio do Ministério das Mulheres apontam que 43% das entrevistadas são as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas; 48% cuidam de alguém sem remuneração; e 60% relatam cansaço e dores físicas.
Relatórios anteriores, como o estudo Esgotadas, do Lab Think Olga (2023), indicam que 86% das brasileiras percebem alta carga de responsabilidades e 45% já receberam diagnóstico de algum transtorno mental. Especialistas consultadas defendem que medidas como fim da escala 6×1, implementação da Política Nacional de Cuidados e do Plano Nacional de Cuidados podem ampliar o tempo disponível das mulheres para estudo, qualificação e trabalho remunerado.
Maternidade e mercado
A maternidade continua a afetar trajetórias profissionais: pesquisa da FGV de 2018 apontou que quase metade das mulheres são demitidas ou deixam o emprego até dois anos após a licença-maternidade. Levantamento da Catho, de 2025, registrou que 60% das mães estavam fora do mercado de trabalho e 83,7% já haviam sido questionadas sobre filhos em entrevistas — prática ilegal.
Com a sanção, em março, da lei que equipara a licença-paternidade, especialistas afirmam que pode haver redução da percepção de risco ao contratar mulheres, desde que empresas e homens se comprometam efetivamente a utilizar o novo direito.
Cargos, liderança e ambiente de trabalho
Apesar de comporem 52,8% da força de trabalho, as mulheres ainda concentram-se em funções associadas ao cuidado, como recursos humanos e enfermagem, e têm participação menor em áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática). O 5º Relatório de Transparência chama atenção para o fato de 37,1% das mulheres trabalharem sem carteira assinada.
O relatório The State of Women in Leadership: Global Employment Trends in 2026, do LinkedIn, posiciona o Brasil em 29º lugar entre 70 países, com 32,2% dos cargos de liderança ocupados por mulheres; a Finlândia lidera com 45,1% e Arábia Saudita e Paquistão aparecem na lanterna, com 12%.
Reportagens e pesquisas também registram aumento de denúncias de assédio: o 19º Anuário de Segurança Pública do FBSP contabilizou 8.353 casos de assédio sexual em 2025, alta de 6,7% em relação ao ano anterior. Especialistas observam, ainda, uma tendência de desaceleração de programas de diversidade e inclusão em empresas privadas, associada a resistência a ações afirmativas e a cortes internacionais em políticas similares.
O arcabouço legal brasileiro, segundo pesquisadoras, segue estimulando iniciativas afirmativas para inclusão de grupos minorizados, e há expectativa de retomada das ações e conselhos voltados à diversidade no ambiente corporativo.
O cenário descrito mostra avanços em participação feminina no trabalho formal, mas evidencia que desigualdades salariais, acúmulo de cuidados não remunerados, penalizações relacionadas à maternidade e barreiras à liderança continuam estruturando a inserção das mulheres no mercado de trabalho em 2026.
Com informações de Revistamarieclaire.globo
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