Como ser mãe altera a percepção sobre aparência e herança genética
Manias, gestos e características físicas transmitidos entre gerações passam a ser olhados de forma diferente após a chegada de um filho. A frase de Simone de Beauvoir resume essa ambivalência: “Uma filha é ao mesmo tempo uma cópia de sua mãe e uma pessoa totalmente diferente e única”. Para muitas mulheres, a maternidade provoca uma reavaliação da própria função, do corpo e da imagem, ao mesmo tempo em que introduz negociações sobre a herança genética e intervenções estéticas.
Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps) de 2024 mostram que as mulheres realizam a maior parte dos procedimentos: 83,9% das cirurgias e 84% das intervenções não cirúrgicas. Especialistas ouvidas apontam que a pressão por um ideal estético persiste ao longo do tempo e se transforma quando se soma a experiência da maternidade. “Se não deixa de lado seus cuidados, a mãe é julgada como negligente com os filhos. Se abre mão disso, é vista como desleixada”, afirma a psicóloga Ana Clara Teixeira.
Depoimentos ilustram como essa dinâmica se manifesta na prática. A criadora de conteúdo Giuliana Pierri, que teve Victoria há 13 anos aos 36 anos, enfrentou limitações na atividade física durante a gestação por risco de parto prematuro — Pierri passou por sete processos de fertilização in vitro e convive com endometriose. “Não poder me exercitar foi desafiador, voltei assim que fui liberada”, relata ela. Com alterações do corpo após a gravidez e amamentação, Pierri fez uma miniabdominoplastia e colocou próteses de silicone anos depois. Ela também realizou otoplastia na infância e redução de mamas aos 20 anos, procedimento que descreveu como alívio frente a comentários maldosos na escola.
Para Pierri, a relação com a filha inclui conversas abertas sobre estética e procedimentos. Ela afirma que vê traços seus em Victoria e brinca que a filha é “uma versão aprimorada”. Em outro exemplo, a empresária Selma Zuppo, 58 anos, mãe de Luiza, 21, diz que se reconhece na filha e que passou a realizar procedimentos estéticos aos 46, como toxina botulínica, preenchimentos e lasers. Selma autorizou um preenchimento labial de aniversário aos 18 anos para a filha e ressalta que acredita ser uma escolha pessoal de cada uma.
Casos como o de Joelma Santos, 47, mãe de Sara, 29, mostram como decisões estéticas e de cuidados capilares também se cruzam com história familiar e identidade. Santos, mulher negra que alisou os cabelos desde a adolescência, relata ter passado por alterações no corpo após a gestação aos 17 anos e, posteriormente, por cirurgia de redução de estômago, abdominoplastia, retirada de excesso de pele nas mamas e colocação de prótese.
Profissionais apontam que cuidar da aparência após a maternidade pode ser visto como resgate de autoestima e autocuidado, não como mudança da identidade. “Não como um processo de mudar quem se é, mas de resgatar seu próprio brilho”, afirma a dermatologista Lígia Novais. A aposentada Juvane Souza, 54, descreve a maternidade como ponto de mudança na autoimagem: conta que tinha autoestima baixa na juventude e que, ao se tornar mãe, aprendeu a estender o cuidado consigo e com os outros. Hoje, diz, cuida do corpo em aspectos físicos, mentais e espirituais e procura incentivar a filha a também buscar bem-estar.
Em muitos relatos, filhas são descritas como versões “melhoradas” e, ao mesmo tempo, atuam como referência e professoras nos cuidados estéticos. Essas relações refletem continuidade simbólica entre gerações e mostram como a maternidade redefine a convivência com traços herdados, escolhas estéticas e a construção da própria imagem.
Com informações de Revistamarieclaire.globo
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