A Fender notificou marcas concorrentes para barrar a venda de guitarras no estilo Stratocaster. A decisão gerou revolta entre músicos e luthiers, que acusam a gigante americana de sufocar a concorrência.
Nos últimos meses, o universo dos instrumentos musicais foi agitado por uma série de discussões após a Fender enviar notificações extrajudiciais para diversas marcas concorrentes, incluindo fabricantes independentes e de menor porte. A gigante da guitarra anunciou que está exigindo a interrupção da venda de guitarras que imitam o icônico design da Stratocaster.
A reação da comunidade de músicos, luthiers e amantes da música foi imediata, com várias críticas apontando que a Fender estaria tentando monopolizar o mercado e sufocar a concorrência e a inovação no segmento das guitarras “estilo S”. Diante desse cenário de insatisfação, o CEO da Fender se manifestou para esclarecer as intenções por trás dessa polêmica.
Em um pronunciamento recente feito a distribuidores e parceiros comerciais, Edward “Bud” Cole buscou acalmar os ânimos e redefinir a narrativa em torno da campanha jurídica da marca. Sua primeira abordagem foi enfatizar a natureza pacífica — ao menos em sua origem — da ação da empresa.
“Antes de mais nada, a Fender não está processando ninguém. O que fizemos foi entrar em contato de forma atenciosa e respeitosa com algumas empresas cujas guitarras se aproximam muito do design icônico da Fender Stratocaster.”
De acordo com Cole, o objetivo da Fender não é eliminar modelos tradicionais, mas sim impedir clones exatos e proteger o legado histórico da marca. Ele comentou:
“Estamos falando especificamente da Stratocaster, porque é disso que se trata realmente – chamá-la simplesmente de ‘estilo S’ ou ‘formato S’ é uma tentativa de diminuir e encobrir a contribuição imensurável e revolucionária que nossas equipes deram a toda a indústria, na qual todos nós construímos grande parte do nosso sucesso e das nossas carreiras.”
O CEO também tranquilizou os consumidores finais, afirmando que a Fender “não tem intenção de perseguir artistas, músicos, colecionadores ou qualquer pessoa que simplesmente ame fazer música”, enfatizando que o foco está estritamente nos fabricantes comerciais.
É importante ressaltar que a atual campanha de notificações da Fender não é um ato isolado; ela é o resultado direto de uma vitória jurídica conquistada pela empresa nos tribunais europeus. Recentemente, a Corte Regional de Düsseldorf, uma das mais influentes da Europa em questões de propriedade intelectual, determinou que o desenho do corpo da Stratocaster é, de fato, propriedade intelectual da Fender na Alemanha e em toda a União Europeia, independentemente do país de fabricação do instrumento.
Qualquer violação futura a essa decisão judicial pode resultar em multas que podem chegar até 250 mil euros (cerca de R$ 1,5 milhão) por infração, ou até seis meses de detenção para os responsáveis, em caso de não pagamento da multa.
No entanto, é válido mencionar que, apesar dessa proteção na Europa, a Fender não possui o mesmo respaldo nos Estados Unidos. Em 2009, a empresa perdeu um processo contra várias fabricantes de instrumentos, onde tentava estabelecer a proteção de marca para seus três modelos mais renomados: Stratocaster, Telecaster e Precision. O United States Patent and Trademark Office considerou que esses desenhos são genéricos, especialmente a Stratocaster, como foi apontado em um parecer.
“As evidências demonstram de maneira esmagadora que essas configurações são tão comuns na indústria a ponto de não ser possível identificar a origem. De fato, no caso do contorno do corpo [Stratocaster], essa configuração é tão comum que é retratada como uma guitarra elétrica genérica em um dicionário.”
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