Guardei quase 2.000 CDs e pensei ser acumulação, mas o formato renasce. Relatório da Luminate mostra crescimento nas vendas pela primeira vez em mais de uma década. Preço mais baixo, K-pop e a geração Z explicam a demanda.
Quando decidi manter minha coleção de quase 2.000 CDs, confesso que imaginei que alguém poderia me chamar de acumuladora. Nos anos 2010 parecia que o formato tinha mesmo ido embora, substituído pelo MP3 e, em seguida, pelo streaming. A verdade, porém, é que a música se comporta em ciclos — e, por mais surpreendente que pareça, o CD está de volta.
Essa sensação de renascimento deixou de ser só impressão: o Relatório Semestral 2026 da Luminate tangibilizou a tendência. Os dados divulgados no final de julho apontam que, pela primeira vez em mais de uma década, o crescimento das vendas de CDs superou o do vinil nos Estados Unidos. A diferença é expressiva: os CDs cresceram 16%, atingindo 16,3 milhões de unidades no primeiro semestre, enquanto o vinil avançou apenas 2,4%.
Há um fator prático que ajuda a explicar essa guinada: o preço. Não dá para romantizar a questão financeira. No mercado americano, um LP novo costuma custar entre US$ 25 e US$ 40; um CD novo sai por US$ 10 a US$ 14, ou seja, uma fração do preço do vinil. No mercado de usados, essa diferença se amplia: é comum sair de lojas beneficentes com dezenas de CDs de ótima qualidade por menos do que se pagaria em um único vinil novo.
Esse baixo custo transforma o CD numa porta de entrada perfeita. Antes de investir em um vinil duplo ou em uma edição especial, muita gente prefere pagar pouco para ter o objeto físico — capa, ficha técnica e, se der sorte, encarte com letras — e sentir a dopamina da posse. Para quem está começando a colecionar, o CD entrega esse prazer sem exigir um grande desembolso.
A geração Z aparece no centro dessa história. Parte significativa desse público busca colecionar e expressar identidade através de objetos físicos, mas nem sempre dispõe de recursos abundantes. O CD combina acessibilidade e tangibilidade. Além disso, uma parcela dos compradores de CDs nem sequer possui um aparelho para reproduzi-los: adquire-se o photocard, a embalagem, a conexão emocional com o artista.
O fenômeno do k-pop está profundamente ligado a esse colecionismo. Comprar cinco versões diferentes de um álbum de k-pop em CD costuma sair mais barato do que adquirir uma edição em vinil, e cada cópia traz seus atrativos colecionáveis. O álbum ARIRANG, do BTS, é um exemplo marcante: vendeu aproximadamente 567 mil cópias nos Estados Unidos, impulsionado por cinco versões distintas em CD.
Mas o crescimento não é só k-pop: mesmo excluindo todo o catálogo sul-coreano, as vendas de CDs nos EUA ainda cresceram 6,7% no primeiro semestre. Há algo maior em jogo.
Outro dado que chama atenção é a relação da geração Z com o retrô: 60% dos integrantes da geração Z dizem ouvir predominantemente músicas lançadas na década de 1990 ou antes; em 2021 esse índice era de 18%. Essa busca por referências antigas não é apenas nostalgia; funciona também como uma afirmação em meio ao consumo musical efêmero do streaming.
Em palavras de Jaime Marconette, VP de Insights Musicais da Luminate:
“A mecânica do consumo moderno de música está se deslocando para o crescimento impulsionado pela cultura e pelo engajamento comunitário”.
No Brasil, a situação segue diferente: as três majors (Universal, Sony e Warner) ainda não voltaram a investir no formato. O país tem atualmente três fábricas de vinil — Polysom e Rocinante, no Rio, e Vinil Brasil, em São Paulo — e menos de dez empresas de replicação industrial ativas, que reproduzem CDs e DVDs, mas não fabricam do zero. O CD, assim, renasce não necessariamente como o formato de audição mais sofisticado, mas como um objeto acessível de afeto e pertencimento.

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