Maria Bethânia completa 80 anos nesta quinta-feira, 18 de junho. A baiana que conquistou o Brasil ao substituir Nara Leão no espetáculo 'Opinião', com apenas 18 anos, segue sendo uma das maiores vozes da música brasileira.
Maria Bethânia, uma das maiores vozes da música brasileira, completa 80 anos nesta quinta-feira, 18 de junho. Nascida em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano, em 1946, sua trajetória musical começou de forma surpreendente e inesperada. Com apenas 18 anos, ela recebeu um convite que mudaria tudo: substituir Nara Leão, a musa da bossa nova, no espetáculo ‘Opinião’. Essa oportunidade veio após Nara conhecê-la durante uma viagem à Bahia, e a escolha de Bethânia para o papel principal no Teatro de Arena de Copacabana foi um marco em sua vida.
O espetáculo ‘Opinião’ já era um sucesso estrondoso desde sua estreia em dezembro de 1964, cercado de polêmicas por seu conteúdo considerado subversivo e panfletário. Reunindo no palco um nordestino, um carioca pobre e negro da favela e a mais ‘patricinha’ das cantoras da Zona Sul, o show abordava temas como a desigualdade social em um momento histórico delicado para o Brasil. A chegada de Bethânia trouxe ainda mais intensidade ao espetáculo, e foi ali que nasceu seu primeiro grande sucesso: ‘Carcará’, de João do Vale e José Cândido.
A princípio, o compromisso era para durar apenas cinco dias, mas, como Bethânia relembrou em uma entrevista ao Globo Repórter, essa experiência se transformou em sua vida. ‘Disseram que seriam cinco dias. Mas Nara não voltou. Tive que voltar para Santo Amaro para explicar aos meus pais que não seriam cinco dias, e sim a minha vida’, afirmou ela. A reação de seu pai, seu Zezinho, ficou marcada em sua memória: ‘Se você for feliz, a responsável é você. Se for infeliz, o culpado sou eu’.
A decisão de se mudar para o Rio de Janeiro teve um efeito dominó em sua família. O irmão Caetano Veloso, quatro anos mais velho, também decidiu arriscar sua sorte na cidade. Em suas palavras, ‘Essa coisa da música foi Caetano quem trouxe muito para mim’, reconhecendo a influência que seu irmão teve em sua carreira. Com isso, artistas como Gilberto Gil e Edu Lobo logo se tornaram parte de seu repertório, enquanto Gal Costa fez sua estreia em disco ao dividir vocais com Bethânia em ‘Sol Negro’.
A carreira de Bethânia, que começou naquele palco improvisado, a levou a se tornar, em 1978, a primeira cantora brasileira a vender mais de 1 milhão de cópias de um único álbum, ‘Álibi’. Apesar de seu sucesso, ela nunca abandonou a dramaticidade que a caracterizou desde o início. A declamação de versos e seu mergulho no cancioneiro popular nordestino tornaram-se marcas registradas. Décadas depois, ela ainda mantém o ritual de chegar com quatro horas de antecedência a cada show, rezando e pedindo licença ‘aos deuses da cena e a quem me protege’ antes de cantar. Tudo começou com um convite de cinco dias, que se transformou em uma vida inteira de música e poesia.