O primeiro longa de animação dirigido por uma mulher negra concorre ao prêmio principal do 59º Festival hoje (19). Mistura 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion para entrelaçar memória, ancestralidade e deslocamento.
O primeiro longa-metragem de animação dirigido por uma mulher negra na programação do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Ana, en Passant pode deixar o evento HOJE (19) com o prêmio principal da competição. A estreia de Fernanda Salgado chega como uma proposta visual e sonora marcada por técnicas mistas e por uma narrativa que cruza memórias, ancestralidade e deslocamento.
O filme combina animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion para contar a história de Ana, que deixa a cidade de Paris após a morte da avó. De herança, a jovem recebe uma caixa com uma carta, objetos, duas chaves e um endereço em Belo Horizonte. Fascinada pela possibilidade de descobrir um capítulo desconhecido de sua própria história, Ana viaja para o Brasil, e a jornada é desenhada em camadas visuais e sonoras que dialogam entre si.
A obra conta com vozes de Jéssica Pierina (conhecida por Vivo ou Morto), Zezé Motta (O Filho de Mil Homens) e Carlos Francisco (O Agente Secreto). A trilha sonora é assinada pela banda Metá Metá, escolha feita pela diretora: o som da banda de jazz-rock acompanhou o processo de reescrita do roteiro entre 2020 e 2021 e acabou se integrando à proposta estética do filme.
Fernanda Salgado ressaltou a sintonia entre som e imagem, indicando que a textura e os ruídos presentes na música dão suporte à proposta visual de sobreposição de técnicas. Em suas palavras:
A estética sonora deles conversa muito bem com a nossa proposta estética visual. É um som muito texturizado, cheio de ruídos, que se deixa sentir.
Ela também relacionou a presença das referências das religiões de matriz africana e afro-brasileira na narrativa e na estética, e como esse elemento encontra eco na música escolhida para o filme:
Porque o filme, em termos visuais, tem a superposição de texturas e técnicas. Esse diálogo é tão misto e faz com que não tenha uma linearidade nesse universo que é um pouco desconstruído, então, os ruídos presentes são quase visíveis. O tipo de som que o Metá Metá faz conversa muito diretamente com essa proposta estética visual que a gente tinha. E, para além disso, acho que o elemento das referências das religiões de matriz africana e afro-brasileira estão super presentes na narrativa, no tema e na estética visual, e isso também está presente ali na música deles, nessa maneira híbrida. Então também por isso fez tanto sentido a presença deles musicalmente.
Concorrentes na Mostra Competitiva Nacional
- Pequenas Tragédias – longa de Daniel Nolasco na disputa.
- Tudo é Tempo – longa de Marcos Guttmann na disputa.
- Todo o Sentimento – longa de Ary Rosa e Glenda Nicácio na disputa.
- Privadas de Suas Vidas – longa de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner na disputa.
- Se Eu Fosse Vivo… Vivia – longa de André Novais Oliveira na disputa.
- Sabes de Mim, Agora Esqueça – longa de Denise Vieira na disputa.
Os vencedores serão anunciados em cerimônia a ser realizada HOJE, dia 19 de setembro, no encerramento da 59ª edição do festival de cinema. A presença de Ana, en Passant na lista de indicados destaca não apenas uma voz autoral emergente, mas também uma linguagem formal que aposta na mistura de técnicas como território narrativo.
Além do valor simbólico de sua relevância na programação, o filme surge como aposta estética: camadas visuais que se cruzam com uma trilha sonora que propõe ruídos, texturas e referências culturais que enriquecem a experiência. Se for premiado, Ana, en Passant terá o reconhecimento formal do festival para uma obra que se coloca no encontro entre memória pessoal, trajetória migratória e matriz sonora-afro-brasileira, assinada por um elenco de vozes já reconhecidas no cinema nacional.
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