Em 1º de setembro de 1994, um anime recusado pela Globo virava fenômeno na tarde da TV aberta e abria caminho para toda uma geração de fãs no Brasil
Era uma quinta-feira. Em 1º de setembro de 1994, a TV Manchete colocou no ar, quase sem alarde, o primeiro episódio de um desenho japonês que ninguém imaginava que mudaria a televisão brasileira. Chamava-se Os Cavaleiros do Zodíaco, e o capítulo de estreia tinha um título que hoje soa profético: “As Lendas de uma Nova Era”.
Trinta e dois anos depois, quem tinha entre 8 e 15 anos naquela época ainda lembra da sensação de correr da escola para chegar a tempo. E lembra, principalmente, do arrepio quando a armadura de Pégaso se montava na tela.

A Globo recusou. A Manchete disse sim
A história de como o anime chegou ao Brasil é quase tão improvável quanto as batalhas da série. A distribuidora Samtoy ofereceu 52 episódios a emissoras brasileiras em troca de espaço publicitário para os brinquedos da linha. Bateu na porta da Rede Globo e ouviu não.
A Manchete era a última esperança da série na TV aberta. Coube a Eduardo Miranda, então chefe da divisão de cinema da emissora, decidir. E o primeiro impulso dele também foi recusar: o trailer que assistiu tinha cenas violentas demais para o público infantil.
Miranda pediu para ver episódios completos. Assistiu. E mudou de ideia. Foi essa reconsideração que colocou Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki na tela brasileira.
De 4 pontos de Ibope a 15
A estreia foi tímida, com pouca divulgação. Os episódios entraram encaixados em dois programas infantis que já existiam: o Dudalegria, pela manhã, e o Clube da Criança, no fim da tarde. Os horários variavam entre 10h, 10h30, 18h, 18h15, 18h30 e 19h aos domingos.
As primeiras exibições marcaram de 4 a 5 pontos no Ibope — já o dobro da média infantil do canal. Quando a Manchete anunciou que traria episódios novos, a audiência saltou para 15 pontos. Para uma emissora que vivia sua fase mais difícil, era um fôlego inesperado.

As vozes que ficaram na memória
Boa parte do carinho que o Brasil tem pela série se explica pela dublagem. O trabalho foi feito no estúdio Gota Mágica, sob direção de Gilberto Baroli — que também deu voz a Saga de Gêmeos. Seu filho, Hermes Baroli, dublou Seiya, e Letícia Quinto viveu Saori Kido, a reencarnação de Athena.
São vozes que uma geração inteira reconhece em dois segundos. Os gritos de golpe, o jeito particular de dizer “Meteoro de Pégaso” — tudo isso é dublagem brasileira, e virou patrimônio afetivo.
O fenômeno saiu da TV e foi para as lojas
O impacto comercial foi ainda mais absurdo que o de audiência. O primeiro lote de bonecos tinha previsão de vender 90 mil unidades. Vendeu 400 mil.
Entre o Dia das Crianças e o Natal de 1995, foram mais de 1 milhão de bonecos vendidos, movimentando cerca de R$ 50 milhões. Quem viveu a época lembra das armaduras de plástico dourado, das caixas coloridas e da disputa para completar os doze cavaleiros de ouro.

Os cinco de bronze
No centro da história está Seiya, um jovem que se torna Cavaleiro de Bronze para proteger a deusa Athena. Ao lado dele lutam quatro companheiros, cada um com uma armadura ligada a uma constelação:
- Seiya — Cavaleiro de Pégaso
- Shiryu — Cavaleiro de Dragão
- Hyoga — Cavaleiro de Cisne
- Shun — Cavaleiro de Andrômeda
- Ikki — Cavaleiro de Fênix
O que move os cinco é o Cosmo — a energia do universo que existe dentro de cada um e que só desperta por inteiro quando eles estão dispostos a se sacrificar por algo maior. É uma ideia simples e poderosa, e talvez explique por que a série envelheceu tão bem.
As sagas que ninguém esquece
A obra criada por Masami Kurumada se divide em arcos que os fãs discutem até hoje:
- Santuário — a escalada das doze casas, considerada o ponto alto da série
- Asgard — arco exclusivo do anime, ambientado no gelo do Norte
- Poseidon — a batalha nos Pilares do oceano
- Hades — o confronto final contra o deus do mundo dos mortos

O que veio depois
O sucesso dos Cavaleiros abriu a porteira. Logo depois vieram Sailor Moon, Yu Yu Hakusho, Samurai Troopers e Shurato, todos na mesma Manchete. Foi ali que nasceu o mercado brasileiro de anime e mangá como conhecemos — com revistas, eventos, lojas especializadas e uma comunidade que não parou mais de crescer.
A Manchete acabou em 1999. Os Cavaleiros do Zodíaco, não. A série voltou em outros canais, ganhou filmes, remakes, versões em CGI e uma legião de fãs que hoje leva os próprios filhos para assistir.
Trinta e dois anos depois daquele 1º de setembro, o Cosmo continua queimando.
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