Na 21ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, a cineasta Helena Solberg recebeu uma merecida homenagem que não apenas celebrou sua trajetória, mas também proporcionou um rico diálogo sobre o cinema e suas nuances. Em uma coletiva de imprensa realizada em Ouro Preto (MG), Helena conversou sobre a importância do cinema como guardião da memória e a necessidade da preservação audiovisual.
Com o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, a cineasta destacou que a preservação dos filmes vai além de um aspecto técnico, tratando-se de algo histórico. Ela trouxe à tona um exemplo impactante: a quase total perda da produção brasileira de Carmen Miranda antes de sua ida para Hollywood.
“Encontramos aqui no festival essa história dos filmes da Carmen. Restaram apenas quatro minutos. É um escândalo. A preservação da memória de um país é da maior importância.”
O olhar de Helena sobre o cinema é marcado por seu interesse em registrar histórias de personagens que frequentemente ficam à margem da narrativa oficial. Para ela, não há uma linha divisória entre documentário e ficção.
“Eu acho que todo filme é um documentário, inclusive a ficção.”
Para ela, mesmo os filmes de ficção capturam comportamentos e costumes da época em que foram feitos.
A cineasta comentou sobre como surgiu o filme “A Entrevista” (1966), que foi exibido na abertura da CineOP. Inicialmente, seu plano era apenas entrevistar jovens mulheres, mas a desistência delas a levou a reinventar o projeto.
“Quando eu voltei, o filme aconteceu. E aconteceu um filme muito mais interessante do que se eu tivesse simplesmente feito um documentário de moças contando suas histórias.”
Embora frequentemente vista como uma pioneira do cinema feminista, Helena se posicionou de forma a ampliar o debate.
“Existem feminismos, mas eu não gosto de ser vinculada apenas ao feminismo. O feminismo verdadeiro é o humanismo.”
A relação de Helena com o Cinema Novo também foi abordada. Ela se considera parte dessa geração, embora tenha seguido seu próprio caminho artístico.
“Nós éramos uma geração muito próxima. Achávamos que íamos mudar o mundo.”
Seu novo documentário, ainda sem data de estreia, acompanha Wesley, um jovem negro e evangélico que se candidata a uma eleição em Duque de Caxias. Helena acredita que esse tema continua a ser pouco explorado na sociedade brasileira.
“Eu saí da periferia e descobri uma cultura que nós estamos ignorando.”
Ao refletir sobre o cinema contemporâneo, Helena ressaltou as mudanças trazidas pela tecnologia digital, que, embora facilite a gravação, também apresenta desafios na montagem. Mesmo após mais de 60 anos de carreira, ela continua a se perder durante o processo criativo, considerando isso uma parte essencial da descoberta.
“Você pode ser transformado pelo assunto que achava que conhecia.”
Por fim, Helena fez uma análise preocupante sobre os problemas globais atuais, mencionando guerras e tensões políticas, e expressou seu receio sobre o futuro do planeta.
“Tenho muito medo do planeta hoje.”
A programação do 21º CineOP promete ser rica e diversificada, com a Mostra Competitiva Contemporânea, intitulada “Arquivos em Questão”, apresentando longas-metragens que exploram o uso criativo de imagens de arquivo.
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