Procura por aplicações antecipadas preocupa dermatologistas
O chamado “botox preventivo” ganhou espaço nas redes sociais e tem sido oferecido principalmente a mulheres jovens como forma de evitar o aparecimento de rugas antes mesmo que surjam. Postagens em plataformas como o TikTok mostram clínicas exibindo fotos de pacientes na casa dos 20 anos e orientando que o procedimento pode começar quando as primeiras marcas de expressão aparecem, inclusive a partir dos 18 anos, segundo respostas de perfis comerciais.
Apesar da divulgação, especialistas alertam que há evidências clínicas limitadas sobre os efeitos de iniciar aplicações de toxina botulínica tão cedo. A dermatologista Débora Cardial, especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, afirma que a decisão não deve se basear apenas na idade, mas numa avaliação médica detalhada que leve em conta padrão de movimento facial, genética, exposição solar, hábitos de vida e as expectativas do paciente.
Cardial ressalta que, na maior parte dos casos, medidas como uso de protetor solar, aplicação de retinoides e uma rotina consistente de cuidados com a pele têm papel preventivo mais relevante do que sessões de toxina. Segundo a médica, não existe uma idade mínima universal para fins estéticos; a indicação deve ser individualizada. Ela também aponta que jovens podem ter indicações legítimas para a toxina botulínica em situações específicas, como hiperidrose, bruxismo, enxaqueca crônica, assimetrias musculares ou algumas condições neurológicas, mas isso não equivale a recomendar aplicações rotineiras a partir dos 20 anos.
Impacto das redes sociais na autoestima
Pesquisas e observações clínicas indicam que a exposição constante a câmeras frontais, filtros e imagens editadas intensifica a percepção de “defeitos” e aumenta a insatisfação corporal entre jovens. Vanessa Rozan, doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP, que estuda a influência da inteligência artificial no consumo de beleza, afirma que a fase adolescente e o início da vida adulta são marcados por comparações sociais que tornam os jovens mais vulneráveis a aceitar intervenções estéticas precoces.
Rozan destaca que, há algumas décadas, as tendências de beleza circulavam com ritmo mais lento por meios como revistas e televisão; hoje, redes sociais ampliam a pressão estética e reintegraram discursos que podem incentivar procedimentos sem embasamento técnico. A dermatologista Cardial observa no consultório um aumento de pacientes jovens comparando seus rostos com imagens altamente editadas, o que eleva a procura por procedimentos estéticos.
Riscos e papel do profissional
Entre os riscos associados ao uso precoce e indiscriminado da toxina botulínica os especialistas citam perda de naturalidade das expressões, enfraquecimento muscular excessivo e problemas psicológicos relacionados à imagem corporal. Cardial menciona preocupações teóricas — ainda em estudo — sobre atrofia muscular e possível formação de anticorpos em casos de uso muito frequente ao longo dos anos.
Para a dermatologista, a função do profissional vai além da aplicação: inclui orientar, alinhar expectativas e identificar sinais de distorção da autoimagem, pressão social excessiva, impulsividade estética ou dependência de procedimentos para manter a autoestima. A conduta ética, segundo ela, também envolve recusar intervenções quando estas não forem benéficas para o paciente.
Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps) apontam que, em 2022, foram realizados 9,2 milhões de procedimentos com toxina botulínica no mundo. No Brasil, registraram-se mais de 433 mil aplicações, o que corresponde a 44,6% do total de tratamentos estéticos não cirúrgicos.
Com informações de Revistamarieclaire.globo
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