Artista ocupa pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza com projeto que revisita a formação do país
No ateliê onde trabalha no Jardim Regina, na Zona Norte de São Paulo, Rosana Paulino desenvolve um corpo de obras que revisita a presença negra na história do Brasil. A trajetória que a levou ao pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza começou na infância, com brinquedos que ela mesma fazia e com o contato com peças de barro produzidas pela família, e foi consolidada pelo gosto por visitar museus já na adolescência.
Paulino foi a primeira pessoa negra a obter doutorado em Artes Visuais pela Universidade de São Paulo (USP). Na universidade, aprofundou pesquisas que se tornaram base de sua produção artística, sempre articulando experiência pessoal e levantamento histórico sobre racismo e representações do corpo negro.
Em maio, a artista ocupa o pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza, ao lado de Adriana Varejão, no projeto intitulado Comigo Ninguém Pode, com curadoria de Diane Lima. Em 2022, Paulino participou da mostra principal da Bienal a convite da curadoria internacional; agora, como representante do país, propõe uma leitura crítica sobre a formação do Brasil, desde o período colonial até as marcas deixadas pelo fato de o país ter recebido o maior contingente de pessoas escravizadas.
A exposição estabelece diálogo entre obras antigas e trabalhos recentes, incluindo referências à série Senhora das Plantas (2024) e a desenhos anteriores, e utiliza a imagem de uma planta tóxica — transformada em símbolo de proteção — para articular sua investigação sobre violência estrutural e legados coloniais.
O projeto chega em um momento de debate internacional: em março a Organização das Nações Unidas reconheceu que o tráfico transatlântico de africanos escravizados foi o mais grave crime contra a humanidade, resolução que teve três votos contrários — Estados Unidos, Israel e Argentina — e 52 abstenções, majoritariamente de países europeus. Para Paulino, é relevante que o Brasil dialogue sobre essa questão, sobretudo por sua cultura ser fortemente marcada pela presença negra, e pelo fato de três mulheres — duas negras — ocuparem o pavilhão do país pela primeira vez.
Na interação com Varejão, Paulino foi convidada pela curadoria a produzir uma escultura; a artista voltou-se a um desenho de 2005, “Ninfa Tecendo o Casulo”, da série Tecelãs, e pela primeira vez confeccionou uma peça em bronze.
As mulheres, em especial as negras, são presença recorrente em sua obra. Criada em uma casa com a mãe e três irmãs, Paulino reconstrói imagens sociais sobre o feminino negro, denuncia violências e o silenciamento desses corpos. Sua produção também se vale de fotografias históricas da escravidão para questionar o papel do racismo científico nas representações pejorativas dos negros.
Apesar de reconhecimento e visibilidade, a artista relata dificuldades com o mercado: houve períodos de até dez anos sem vendas, mesmo com exposições e reconhecimento internacional. Segundo Paulino, levou 25 anos para passar a viver somente da arte, estabelecendo-se hoje como uma das principais artistas brasileiras. Sua obra Parede da Memória, composta por 1.500 patuás, integra a coleção da Pinacoteca de São Paulo após ter ficado duas décadas guardada pela autora.
Fora do ateliê, Rosana Paulino mantém rotina ligada à leitura, à musculação diária, ao convívio com amigos e ao samba. Aos 60 anos e com 34 de carreira, ela deseja que sua produção deixe de ser vista como nicho e passe a ser reconhecida como parte da arte brasileira, em consonância com a demografia do país.
Com informações de Revistamarieclaire.globo
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