Escritora chilena alerta para retrocessos em direitos das mulheres e celebra autonomia na velhice
A autora chilena Isabel Allende, de 83 anos e prestes a completar 84 em agosto, comentou em uma mesa-redonda internacional sobre a persistência do patriarcado, a perda recente de direitos reprodutivos em alguns países e a liberdade que encontrou ao envelhecer. Allende, reconhecida como a escritora em língua espanhola mais lida no mundo, tem mais de 20 livros publicados, traduzidos para mais de 40 idiomas, e vendas que ultrapassam 80 milhões de exemplares.
Na conversa, em que Marie Claire representou o Brasil, Allende afirmou preocupar-se com a ascensão de governos de ultradireita e com os retrocessos nos direitos de mulheres e meninas. Ela destacou a facilidade com que conquistas podem ser revogadas, citando como exemplo eventos recentes nos Estados Unidos relacionados ao aborto e ao acesso à contracepção.
Ao analisar por que o patriarcado permanece tão enraizado, a escritora sugeriu que fatores biológicos e sociais contribuem para a vantagem masculina histórica, lembrando que, por longos períodos, a maternidade ocupa grande parte da vida das mulheres, o que lhes dá menos tempo para consolidar poder político ou econômico. Segundo Allende, a combinação de poder, violência e ganância fez com que valores associados às mulheres tivessem menos influência no mundo, embora ela não negue que mulheres também possam deter força ou ambição.
Allende também falou de seu trabalho humanitário: após a morte da filha Paula Frias em 1992, criou a Fundação Isabel Allende, que financia projetos globais em educação, proteção contra violência e direitos reprodutivos para mulheres e meninas. A escritora disse que a atuação da fundação permite observar de perto as violações sofridas por mulheres, experiências que por vezes alimentam personagens e enredos de seus romances.
A obra A Casa dos Espíritos foi citada como exemplo da forma como memórias familiares e vivências pessoais influenciam sua escrita; Allende relatou que escreveu o livro enquanto estava exilada na Venezuela e que o exílio político foi uma experiência dura, mas que também lhe deu uma liberdade que não teria tido no Chile.
Ao recordar sua infância, Allende afirmou que cresceu em um ambiente católico conservador e patriarcal e que, desde cedo, percebeu as limitações impostas às mulheres de sua classe. Ela mencionou a mãe, Francisca Llona Barros, como exemplo de mulher inteligente cuja autonomia foi reduzida pela falta de trabalho remunerado e pela dependência econômica da família.
Sobre o envelhecimento, a escritora disse que encontrou uma nova liberdade: com cerca de 80 anos, afirmou ter passado a não se preocupar com expectativas alheias, escolhendo como ocupar seu tempo, abrindo mão de turnês e de relacionamentos profissionais ou pessoais indesejados, e sentindo-se liberta das pressões do mercado da atração física.
Allende também observou que, embora o progresso tenha ocorrido em décadas recentes, a vigilância é necessária para evitar retrocessos nos direitos conquistados pelas mulheres.
Com informações de Revistamarieclaire.globo
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