Alvo de ligações e chamadas de vídeo, profissionais descrevem padrão de abuso
Psicólogas relatam ter sido assediadas por homens que procuram atendimento clínico com a estratégia de se passar por pacientes. O padrão descrito por várias profissionais inclui ligações iniciais com tom de sofrimento, insistência em chamada de vídeo e a inserção de detalhes sexuais explícitos — em alguns casos, o agressor chegou a se masturbar durante a sessão virtual.
Caroline Januário, psicóloga e sexóloga com quatro anos de prática clínica, conta que atendeu uma chamada acreditando ser um conhecido, mas logo percebeu que o interlocutor seguia um roteiro já conhecido: fingia angústia para criar empatia e, em seguida, inseria conteúdo sexual. Ela lembra que um episódio anterior, ainda em 2022, só foi reconhecido como assédio após orientação de sua supervisora.
A psicanalista Andrea Calheiro também recebeu contato de um suposto paciente cujo formulário de anamnese continha descrições explícitas do próprio órgão genital. “É assustador o nível de ousadia. Bloqueei na hora”, relata Andrea, que dirige um instituto de formação em psicanálise nos Estados Unidos e afirma ter tido aulas invadidas duas vezes por homens que exibiram pornografia e mencionaram abuso de crianças, obrigando-a a reestruturar as atividades.
Outra profissional, Carolina Botelho, descreve um atendimento de emergência online em que o homem estava se masturbando diante da câmera. Ela encerrou a sessão imediatamente e recusou a continuidade do atendimento. A psicanalista identificada apenas como Silvana* relata ter recebido, após impulsionar um conteúdo profissional, chamadas de vídeo noturnas e fotos de genitálias.
Segundo as entrevistadas, a normalização do atendimento online desde a pandemia facilitou o acesso de assediadores, que compartilham contatos de psicólogas em grupos e exploram a disponibilidade percebida das profissionais. Depois de publicar seu relato no Instagram, Caroline recebeu dezenas de comentários de colegas de diferentes áreas confirmando experiências semelhantes, o que a levou a concluir que o problema é amplo e estrutural.

Na prática, as profissionais adotaram medidas de proteção: não atender chamadas de números desconhecidos, exigir identificação antes de agendar sessões e encaminhar casos suspeitos para colegas homens. No campo jurídico, indicam a Delegacia da Mulher como canal apropriado para denúncias e pedem que os conselhos regionais e federal de psicologia criem mecanismos específicos de proteção para profissionais que atuam no formato digital.
Marie Claire entrou em contato com o Conselho Federal de Psicologia do Paraná, estado onde Caroline atua, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.
Fonte: Revistamarieclaire.globo
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