O disco “Caça à Raposa”, lançado em 1975, chega a meio século de existência em 2025 e segue reconhecido como um retrato contundente da violência social e política que marcava o Brasil urbano dos anos 1970. O trabalho consolidou a voz de João Bosco de Freitas Mucci, mineiro de Ponte Nova (MG) nascido em 13 de julho de 1946, que até então era mais conhecido como compositor.
Parcerias decisivas
A carreira de Bosco começou ainda em Minas Gerais, incluindo rápida colaboração com Vinicius de Moraes em 1967. Contudo, foi a partir da parceria com o letrista Aldir Blanc (1946-2020) que o cantor ganhou projeção definitiva. Após mudar-se para o Rio de Janeiro em 1972, Bosco foi apresentado ao público pelo Disco de Bolso do jornal O Pasquim e, no mesmo ano, Elis Regina gravou “Bala com Bala”.
Do primeiro LP à consagração
O primeiro álbum de João Bosco, editado em 1973 pela RCA e produzido por Rildo Hora, não alcançou grande repercussão. Dois anos mais tarde, “Caça à Raposa” quebrou essa barreira. Gravado em 16 canais no estúdio da RCA Victor no Rio, o disco contou com César Camargo Mariano nos arranjos e teclados, além de uma formação considerada “banda dos sonhos”: Dino Sete Cordas (violão), Luizão Maia (baixo), Pascoal Meirelles (bateria) e nomes como Hélio Delmiro e Toninho Horta nas guitarras.
Crônicas em forma de samba
O álbum reúne dez faixas de Bosco e Blanc, muitas já conhecidas em vozes femininas entre 1973 e 1974:
- “O Mestre-Sala dos Mares” – homenagem ao Almirante Negro, João Cândido, figura da Revolta da Chibata de 1910;
- “De Frente pro Crime” – relato da violência urbana carioca;
- “Dois pra Lá, Dois pra Cá” – bolero de atmosfera noturna;
- “Jardins de Infância” – contraste entre infância e dureza da vida adulta durante a ditadura;
- “Jandira da Gandaia”, “Escada da Penha” e “Casa de Marimbondo” – crônicas sobre amor, crime e tensão social;
- “Nessa Data” – comentário sobre o clima de repressão;
- “Caça à Raposa” (faixa-título) – reflexão sobre recomeços humanos, hoje presente na turnê Boca Cheia de Frutas;
- “Kid Cavaquinho” – samba de breque popularizado por Maria Alcina;
- “Violeta de Belfort Roxo” – retrato irônico da fé popular.
Violão como protagonista
A despeito do elenco de músicos, o violão de João Bosco — misturando influências africanas, barrocas, árabes, ibéricas, nordestinas e cariocas — aparece como fio condutor de todo o disco, reforçando a identidade rítmica que passaria a marcar a obra do artista.
Imagem: Mauro Ferreira via g1.globo.com
Legado
Após “Caça à Raposa”, Bosco passou a gravar com regularidade, mantendo reconhecimento simultâneo como compositor e intérprete. Cinco décadas depois, o álbum segue celebrado por fãs e estudiosos da música brasileira como registro histórico da MPB em pleno regime militar.
Com informações de G1
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