Em cena, a versão brasileira de Come From Away transforma o trauma do 11 de setembro em relato sobre empatia e união. O musical equilibra leveza e respeito sem banalizar a dor.
Para muita gente, soa quase improvável imaginar um musical sobre o 11 de setembro. A pergunta que vem à cabeça é óbvia: como traduzir para cena um dos traumas mais profundos do século XXI sem banalizar a dor? Vindos de Longe, versão brasileira do musical da Broadway Come From Away, responde a essa pergunta com delicadeza e coragem. O espetáculo é, ao mesmo tempo, colorido e comovente; alegre em seus momentos e sensível quando precisa carregar o peso da história.
O espetáculo não tenta transformar a tragédia em algo leve nem amenizar a gravidade do acontecimento. Em vez disso, escolhe olhar para o que aconteceu longe das imagens televisivas: enquanto o horror dominava os céus e Nova York, outra história se desenrolava em Gander, no Canadá. Quando o espaço aéreo norte-americano foi fechado, 38 aviões foram desviados para essa pequena cidade, fazendo com que mais de 7 mil passageiros, vindos de países, línguas e crenças diferentes, desembarcassem de repente em uma comunidade sem estrutura para recebê-los.
Ao focar nessas histórias humanas, Vindos de Longe encontra sua maior força. A peça se transforma em uma reflexão sobre o que fazemos uns pelos outros diante do desconhecido: estranhos que virariam anfitriões, que dividem comida, abrigo, medo e histórias; e, aos poucos, afeto. Há uma evidente analogia com a própria experiência de ir ao teatro: entramos vindos de lugares distintos, sentamos lado a lado com desconhecidos e, por quase duas horas, compartilhamos as mesmas emoções — rimos, choramos, silenciamos juntos — e saímos diferentes do que éramos ao entrar.
A direção de Rafael Gomes entende que a grandiosidade do espetáculo não está em recriar cinematograficamente o tamanho do acontecimento. No Teatro Ruth Escobar, a montagem não precisa construir uma Gander hiperrealista nem reproduzir aviões e aeroportos com cenários monumentais. A cenografia de Wagner Antônio prefere sugerir — oferecer elementos na medida certa para que a imaginação do público complete o que não está ali fisicamente. Luzes, movimentos e ocupação de palco transformam objetos simples em lugares e emoções.
O trabalho coreográfico de Fabricio Licursi integra movimento e narrativa: andar, correr, dançar e atravessar o palco são extensões do enredo. O texto e as canções de Irene Sankoff e David Hein mantêm um ritmo que alterna humor, tensão e emoção, evitando que a montagem caia na solenidade. É mérito da peça saber quando provocar riso e quando silenciá-lo.
Vindos de Longe também aborda tensões contemporâneas, como o preconceito contra muçulmanos, lembrando que tragédias podem aproximar e, ao mesmo tempo, servir de combustível para divisões. Incluir esse aspecto evita uma visão ingênua de fraternidade: acolher o outro passa por confrontar medos e preconceitos.
Há ainda espaço para histórias sobre representatividade. A personagem Beverley Bass, interpretada por Thaís Piza, é a piloto americana que se tornou a primeira mulher a comandar um avião comercial da American Airlines. O solo de aproximadamente cinco minutos de Thaís é um dos momentos mais arrebatadores do espetáculo, carregado de orgulho e emoção, capaz de tocar profundamente a plateia.
No conjunto, Vindos de Longe mostra que o musical pode ser tanto festivo quanto profundamente humano: um convite para lembrar que, mesmo diante do absurdo e da dor, ainda há gestos que nos aproximam.
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