A série Lucky, disponível na Apple TV, surpreende ao começar de maneira inusitada: o grande roubo já foi realizado, o dinheiro sumiu, e a protagonista, vivida por Anya Taylor-Joy, tenta abandonar o crime. No entanto, essa tranquilidade é breve. Em pouco tempo, Lucky descobre que foi traída, perde tudo o que roubou e passa a ser perseguida pelo FBI e por criminosos ainda mais perigosos.
Um dos maiores trunfos da série é a escolha de iniciar a trama após o assalto, evitando episódios centrados em planos elaborados. O público é inserido diretamente na ação e aos poucos descobre o que deu errado, quem traiu a protagonista e por que seu passado continua a assombrá-la.
Anya Taylor-Joy entrega uma atuação segura e envolvente. Sua personagem não é a típica criminosa simpática; Lucky mente, manipula, rouba e usa quem for necessário para sobreviver. Apesar disso, há um desejo sincero de romper com a vida de crimes herdada do pai, interpretado por Timothy Olyphant.
“Olyphant usa bem o charme que sempre marcou sua carreira. O personagem fala com leveza mesmo quando sua presença revela algo mais sombrio.”
John Armstrong, o pai de Lucky, é um golpista carismático que ensinou a filha a sobreviver em um mundo de desconfiança e oportunidades. Mesmo preso, sua influência é constante, ajudando-a a escapar de situações difíceis e ao mesmo tempo representando o laço que ela deseja romper.
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A série não simplifica a relação entre Lucky e seu pai, nem transforma a protagonista em uma mera vítima. Ela tomou suas próprias decisões, causou danos e, por vezes, usa sua origem como desculpa conveniente.
Com equilíbrio entre fragilidade e frieza, Taylor-Joy constrói uma personagem que, como em O Gambito da Rainha, é brilhante e sabe explorar a confiança alheia. Em Lucky, ela alterna entre vulnerabilidade fingida e controle violento, sempre pronta para sobreviver sem revelar sua verdadeira identidade.
A série, contudo, exige certa suspensão de descrença em alguns momentos. A presença marcante de Taylor-Joy torna difícil acreditar que Lucky passe despercebida, e algumas cenas de ação favorecem o impacto em vez da lógica.
Ainda assim, Lucky é uma produção que entende seu propósito de entreter. Com perseguições intensas, confrontos físicos e mudanças rápidas de cenário, a série mantém um ritmo ágil e envolvente.
A trilha sonora de Fiona Apple, escura e elegante, complementa a atmosfera de glamour e perigo, enquanto a protagonista nunca está completamente segura. O principal mérito da série é não justificar as ações de Lucky, mas sim apresentar uma mulher habilidosa e imprevisível, presa entre seu desejo de mudança e a atração pelos métodos antigos.
Com uma nota de 4 de 5 estrelas, Lucky é uma série que cativa pela complexidade de sua protagonista e pela ação constante.





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