São Paulo – A história dos medicamentos para perda de peso passou de substâncias estimulantes, com impacto amplo e fortes efeitos adversos, para moléculas que imitam hormônios do trato gastrointestinal e atuam em alvos específicos do apetite e da saciedade.
Dos anos 1970 ao banimento das anfetaminas
Entre as décadas de 1970 e 1980, anfepramona, femproporex e mazindol eram receitas comuns nos consultórios brasileiros. Por elevar dopamina e noradrenalina, esses fármacos cortavam a fome, mas podiam provocar insônia, irritabilidade e problemas cardiovasculares. Segundo a endocrinologista Maria Edna de Melo, o baixo preço facilitava o abuso: pacientes utilizavam “doses cavalares”, emagreciam rápido e pagavam caro nos efeitos colaterais. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu essas fórmulas; nos Estados Unidos, compostos como fentermina ainda são vendidos.
Orlistate: a “pílula da churrascaria”
Lançado na virada dos anos 1990, o orlistate (Xenical) age no intestino, bloqueando cerca de 30 % da absorção de gordura. O endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento lembra que, apesar da proposta inovadora, o principal resultado foi diarreia oleosa e flatulência com perda fecal, sobretudo após refeições gordurosas. O efeito no peso, avaliado como modesto, não envolve controle central da fome.
Sibutramina marca os anos 2000
Com mecanismo parecido ao das anfetaminas, porém considerado mais seguro, a sibutramina inibe a recaptação de serotonina e noradrenalina, aumentando a saciedade. Estudos posteriores sinalizaram maior risco de AVC em idosos e falta de manutenção do emagrecimento no longo prazo. Ainda assim, segue disponível no Brasil para pacientes sem histórico de doença cardiovascular ou transtornos psiquiátricos – situação que, segundo Melo, “ajuda quem precisa de opção com menor custo”.
Chegada dos análogos de GLP-1
A virada ocorreu em 2005 com a exenatida, primeiro agonista de GLP-1. O hormônio, liberado após as refeições, estimula a insulina, atrasa o esvaziamento gástrico e sinaliza saciedade ao cérebro. Náuseas e vômitos, frequentes no início, limitaram o uso inicial.
Em 2010, a liraglutida (Victoza, depois Saxenda) mostrou eficácia tanto no diabetes tipo 2 quanto na redução de peso em pessoas sem diabetes. A seguir vieram semaglutida (Ozempic/Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro). A primeira apresenta média de 15 % de perda de peso corporal; a segunda associa ação em GLP-1 e GIP, chegando a cerca de 20 %.
Imagem: Internet
Alta eficácia, alto custo
As chamadas “canetinhas” podem ultrapassar R$ 1 mil por mês e não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Especialistas destacam que, apesar do preço, o uso dessas drogas tende a reduzir hospitalizações e complicações ligadas à obesidade e ao diabetes, gerando economia a médio e longo prazo.
Efeitos adversos persistem – náuseas, vômitos, pancreatite aguda e cálculos biliares são relatados –, porém a tolerabilidade é considerada melhor que a dos antecessores. “Podemos indicar mesmo para quem tem cardiopatia ou histórico psiquiátrico”, afirma Melo.
A evolução do arsenal farmacológico mostra a corrida médica por tratamentos cada vez mais seletivos, capazes de modular o apetite em pontos-chave sem recorrer à “paulada” dos estimulantes.
Com informações de Folha de S.Paulo
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